Vídeo: História da Comrades

Para quem ama a rainha das ultras, esse vídeo é um achado.

Sim: os primeiros 1:45 são meio chatos, com uma introdução desnecessária – recomendo que pulem.

E sim: ele é infelizmente todo em inglês, sem legendas.

Se isso não for um problema, recomendo fortemente. Dá para entender quase toda a magia dessa corrida (e digo “quase” porque, para entendê-la por completo, só correndo os 89km que separam Durban de Pietermaritzburg).

De volta.

Há alguma coisa sobre a África. 

Os cheiros, as cores, os cantos em coro, os sons de maneira geral. A pobreza, intensa, parece apenas somar pinceladas mais densas na selvageria do que, um dia, foi a vida de todos nós. Pensamento frio, cruel talvez, característico de quem nunca realmente viveu uma situação de necessidade como as almas que cruzam os guetos africanos em busca de sobrevivência. 

Ainda assim, é uma busca diferente de sobrevivência. Enfrenta-se a aridez do solo, o azul dos oceanos, o calor e o frio; enfrenta-se leões e rinocerontes de um lado, tubarões brancos de outro; enfrenta-se a metáfora mais crua e intensa da vida, em seu sentido mais biológico, mais físico e metafísico. 

Há um tipo de intensidade em todo aquele continente que, ao menos para mim, funciona como uma espécie de ímã. 

Este ano, como todos, tem Comrades. Edição de número 91. 

Este ano, diferente dos últimos dois, eu não irei. Considerei que meu ciclo na Comrades havia terminado com a back-to-back, que eu já tinha cumprido meu papel nessa prova histórica onde se corre muito mais com o espírito do que com as pernas, onde se enxerga o percurso com a boca do estômago e não com os olhos. Ledo engano. 

Talvez eu até tenha corrido a minha cota da Comrades – mas a Comrades não me correu o suficiente. 

Eis a África. De alguma forma, ela acaba achando algo em você e te atraindo, colando um desejo primal de estar nela, de fazer parte dela, de respirar seus ares e pisar em seus solos. 

Difícil ver meus tantos amigos que fiz nessa prova partirem para mais uma edição e ficar para trás, apenas observando e torcendo. Difícil acompanhar esses sagrados 89km pela tela de um computador. Difícil não cansar na Polly Shortts, não enxergar Durban a distância, não passar horas cantarolando Shosholoza, não dizer “sawubona” como os zulus. 

Há cerca de um ano fiz um post aqui neste blog fechando, oficialmente, a minha participação. 

Cancelo o post antigo e deixo este novo. 

A África não me verá neste ano de 2016 – mas me verá nos próximos. Pelo menos nos 8 próximos. 

A meta agora é um green number.

O último post

Faltavam 30 km para terminar. Ainda era muito chão, mas o cansaço parecia estar sendo naturalmente combatido pela alegria de correr a Comrades pela segunda vez, cortando uma multidão que incentivava cada passo dado. 

Recebi um tapinha nas costas: era o David, amigo que fiz na minha primeira Comrades e que correria o restante do percurso comigo. Amigos, aliás, foi o maior presente que essa prova me deu, fazendo jus ao seu nome. 

Quando comecei a treinar para a Comrades de 2014 estava essencialmente só: conhecia poucas pessoas no mundo das ultras, não tinha experiência e nem muita gente com quem falar. Normalmente, qualquer pessoa com quem você comente que pretende fazer algo maior que uma maratona te lança um olhar de tamanho receio quanto à sua sanidade mental que, aos poucos, acaba-se preferindo guardar as suas metas para si mesmo.

E esse cenário mudou apenas na véspera da minha primeira Comrades, em Pietermaritzburg, quando, por coincidência, me vi no mesmo hotel de um grupo grande de brasileiros: Zilma, Leandro, Tadeu, Dirceu, David e outros. Ainda não sabia àquela altura, mas todos acabariam se transformando em amigos daquele momento em diante. 

Cruzada a linha de chegada de 2014 no estádio de Kingsmead, em Durban, eu era uma outra pessoa: um dos meus maiores sonhos no mundo das corridas havia se realizado. Às lágrimas, encontrei com os brasileiros na tenda internacional e comemoramos juntos, repassando cada um daqueles instantes esquisitos que fundiram dor e euforia em uma única coisa amorfa, forte, inesquecível. 

Nos 12 meses seguintes, motivado pela sensação de vitória pessoal e com sede de desafios diferentes, me embrenhei pelas trilhas. Fiz uma série de ultras diferentes, cortei vinhedos, montanhas, charcos e colecionei vistas que nunca esquecerei. Diferentemente dos meses anteriores, no entanto, não estava mais só: todos os que conheci naquela noite em Pietermaritzburg acabaram participando dessa minha “segunda vida” fora do cotidiano tradicional, seja com dicas preciosas, com ouvidos abertos e com troca de histórias colecionadas pelos chãos do mundo. 

Quando aterrissei de volta em Durban no dia 28 de maio de 2015, tudo parecia diferente. A cidade, que soava exótica há apenas um ano, era familiar; os cumprimentos zulus estavam mais claros, o mar de indianos me fazia sentir quase em casa, o som do Índico lambendo as areias instalava um sorriso imediato na face. Sabia, desde o primeiro minuto em solo sul-africano, que essa seria a minha última Comrades – e queria aproveitar esse naco do continente selvagem como nunca. 

Aproveitei. 

Nos 6 dias que passei aqui, mergulhei de cilindro entre tubarões e moreias, fui a um jogo de rugbi, fiz trekking pelas montanhas Drakensberg com direito a conferir impressionantes pinturas rupestres, comi mais curry que os indianos na Florida Road, saltei 88m do maior Bunge Jump do mundo e, claro, fiz a Comrades. 

Na largada, amigos feitos no ano passado se somaram aos feitos desde então: Nishi, Cracrá, Thiago, Bruno, Dionísio, Álvaro, Wilson, Bulka, Farnese (que, diga-se de passagem, terminou os 87km em impressionantes 6h54), Nadjala e os heróis Nato Amaral e Rodrigo João, que haviam cruzado 1700km de bike nos 10 dias anteriores à largada da Comrades em um feito sobrehumano. Aliás, ao longo da prova, companheiros brasileiros não faltaram para aliviar o cansaço a cada km percorrido sob massacrantes 30 graus. 

Estava repassando cada um desses momentos, rindo e trocando ideias com a multidão que não parava de incentivar, quando senti o tapinha nas costas do David. 

A princípio, estranhei: ele é (muito) mais rápido do que eu, o que significava que estar ali, atrás de mim, era sinal de que algo não estava certo. De fato, ele estava enjoado, travado, com câimbras e já flertando com a possibilidade de desistir da cobiçada Back-to-Back, a medalha extra concedida a todos os que terminaram duas Comrades consecutivas (fazendo assim os dois sentidos do percurso). 

Decisão imediatamente tomada: iríamos juntos até o fim. E posso garantir que, para ele, a coisa realmente estava pegando. Correr, mesmo nos trotes mais leves, era uma tortura; nas subidas, uma impossibilidade. Mas fomos, embalados pela multidão que incentivava incessantemente e pela sensação da chegada que se aproximava a cada passo. Cheguei até a ficar com culpa em um determinado ponto, pois o sofrimento do camarada era praticamente inverso à onipresente sensação de alegria a cada passo dado por mim. Para falar a verdade, não lembro de ter me divertido tanto em uma prova ao ponto de ignorar por completo calor, cansaço e qualquer dificuldade física que costuma vir de bônus com esforços como esse. 

Não minto que tinha uma meta original, de fazer 10h30. Mas fazê-la significaria deixar o David para trás, algo que seria praticamente um insulto ao próprio conceito da prova declarado em seu nome: comrades, afinal, significa camaradagem. Entendi ali que a meta mesmo deveria ser chegar junto, honrando a ultra, independentemente do tempo. 

Assim fomos devorando placas e mais placas de quilômetros, ele brigando com o próprio corpo e eu curtindo cada centímetro de percurso. Nos 7km finais – graças aos céus de pura descida – decidimos seguir em um trote fixo para pelo menos tentar um sub-11. E, de alguma maneira, ambos conseguimos praticamente sem pausa para caminhada, furando todos os postos de hidratação como balas atravessando a savana. 

No km final, David tirou uma bandeira do Brasil e me entregou para que eu cruzasse a linha de chegada com ela, no que prontamente aceitei. A essa altura, a vista já começava a ficar nublada com as lágrimas e cada segundo passado na África pairava sobre a mente. Os dois anos dedicados à Comrades, os treinos duros, o mundo de aprendizado e autoconhecimento proporcionado pelas ultras, tudo parecia voar pelos olhos com a velocidade da luz. 

De repente, o relógio na linha de chegada apareceu. Se corresse muito, engatando um sprint insano, eu conseguiria bater o meu tempo do ano passado por 1 minuto. 

Voei, correndo os últimos 30 segundos como se não houvesse amanhã. E consegui. Ou melhor: conseguimos.

10h53m45s. 

Seria o meu adeus a essa prova que tanto me ensinou e que tanto presente me deu ao longo desses últimos dois anos. 

A partir daquele instante, com duas medalhas novas penduradas no peito – a da prova e a back-to-back – estava já pronto para seguir adiante com outros desafios por outros cantos do mundo.

E, com elas, encerro o último post deste blog. Ele permanecerá ativo, claro, e espero que toda a pesquisa feita nesse período possa ajudar quem mais quiser perseguir a rainha das ultras. Do meu lado, continuarei postando no www.rumoastrilhas.com, onde pretendo registrar novas metas e desafios alcançados. 

Para todos os que me ajudaram nesses últimos anos, para todos os amigos feitos e que reputo como verdadeiros heróis, deixo uma única última palavra que certamente dirá tudo para quem já se tornou íntimo da Comrades: shosholoza!

  

Sawubona, Drakensberg!

Hoje é a véspera. 

O calçadão de Durban já amanheceu coalhado de corredores liberando a ansiedade pelos pés, cozinhando suas tensões nessas poucas horas que faltam.

Mas, como comentei no post de ontem, a melhor coisa de se estar em um paraíso como a África é poder curtir cada instante que ele proporciona. E, por essas bandas, isso inclui um pequeno trekking pelas montanhas Drakensberg, passeio que fiz junto com o Nishi, que também buscava algo diferente no dia.

O nome zulu da região, na realidade, é uKhahlamba: Drakensberg, que significa “espinha do dragão” em Afrikaan, idioma dos bôeres, veio depois. 

O trekking em si é curto, de cerca de 1 hora – perfeito para o dia. E a vista… essa é indescritível. Rochedos gigantes parecem brotar de todo lado, contrastando com um céu densamente azul e uma vegetação híbrida, montanhosa, do tipo que tenta sobreviver em condições complicadas. Pelo chão, pequenos arbustos parecem abrir caminho para tocas de veados da montanha. Fezes espalhadas indicam que eles moram por aqui, dividindo a área com onipresentes babuínos e com um ou outro leopardo. Estes, ainda bem, preferiram não das as caras.

E isso foi só o aperitivo: dentro da caverna principal, uma das maiores coleções de pinturas rupestres contam a história dos primeiros homo sapiens. Primeiros mesmo, diga-se de passagem, considerando que estamos no berço da humanidade. 

É incrível como realmente se consegue ler a história a partir de imagens: todos os seus hábitos, suas crenças e seus cotidianos estavam ali, expostos, nítidos como poucos livros conseguiriam deixá-los.

E tudo completamente conservado, intacto, naquelas condições que nos deixam inspirados. Difícil descrever em palavras, até. Melhor deixar essa tarefa para as fotos que pareciam nascer por conta própria!

   
                         Agora… bom… agora é descansar as pernas para fazer a minha segunda Comrades amanhã!