5 regras do treinamento solo

Um dos maiores problemas que sempre tive foi a grande inabilidade em treinar em grupos. O raciocínio é simples: o amor pela corrida vem justamente do tempo (e do silêncio mental) que o esforço por tempos prolongados proporciona.

Ao adicionar uma assessoria esportiva e treinos em grupo, a fórmula imediatamente se desmonta. E quem saía perdendo com isso era eu pois, sem um treinador, dificilmente eu conseguiria saber exatamente como fazer para preparar o corpo. Certo?

Errado.

Não tenho nada contra nenhuma assessoria, mas treinar sozinho permite um nível diferente de sintonia entre o corredor e o seu corpo. Não se trata de estipular uma meta: trata-se de saber detectar os sinais que o corpo dá, experimentar com tempos e distâncias e, aos poucos, construir planilhas próprias.

Levei um bom tempo para conseguir ouvir o meu corpo e o processo inteiro me levou a fazer diversos ajustes na forma e nas passadas, além de abandonar completamente os tênis com muito amortecimento. Li livros, artigos e revistas sobre o assunto – por puro prazer, aliás. E acabei descobrindo que essa busca pelo conhecimento do corpo é essencial também para se ter o tipo de “endurance” necessário para se completar provas longas, de maratonas a ultras como a Two Oceans ou, claro, a própria Comrades.

Saber ouvir o corpo significa, para mim, os seguintes pontos principais:

1) Zonas de esforço: Cada um tem uma sensação de esforço condizente com seu grau de condicionamento físico e descobrir os ritmos faz parte do processo. Há ferramentas variadas para isso – desde corridas com monitor cardíaco até testes de 3km – mas nunca usei nenhuma. Fui esbarrando nos limiares aeróbicos e anaeróbicos de forma mais solta, fluida. No final, dividi meu esforço em quatro zonas: azul para trotes (bem) leves que não cansam (e, ao contrário, permitem um descanso ativo importantíssimo); verde para corridas confortáveis, em um tipo de velocidade de cruzeiro que impulsiona a endorfina; amarelo para corridas mais puxadas, em que falar normalmente já se torna dificil; e vermelho, caracterizado por se botar o pulmão para fora.

Com o tempo, as zonas vão evoluindo naturalmente: consegue-se aumentar o ritmo sem passar para zonas mais aceleradas, sendo tudo isso percebido de maneira bem orgânica.

2) Descanso: Correr todo dia é fantástico – principalmente para quem quiser quebrar rapidamente. Nas minhas planilhas, sempre insiro dois ou três dias de descanso para que o corpo se recupere. Às vezes é difícil ficar em casa – mas basta entender que descansar também faz parte do treinamento e tudo se resolve.

3) Simetria: Existem dois tipos de dor: o cansaço muscular e algo mais intenso, que indica uma lesão prestes a vir. Cansaço muscular é extremamente saudável – afinal, ele indica que o corpo está se reparando dos pequenos rasgos gerados pelo exercício. E, claro, o mesmo cansaço que ocorre na perna esquerda, por exemplo, tende a ocorrer na direita. O mesmo vale para pés, tornozelo, panturrilha etc. Pois bem: a partir do momento em que uma dor fica intensa apenas em um dos lados, é porque algo está errado – e este algo provavelmente levará a uma lesão. A melhor forma de prevenir é, sempre, entender a origem da dor. Se for gerada por uma forma errada de corrida, procure corrigir; se for por excesso de treinos, dê um tempo; se for um tênis pouco adequado, troque; e assim por diante. Uma dor estranha não significa que você precisará parar de correr – mas ignorá-la dificilmente trará bons resultados.

4) Conhecimento: Correr não é, nem de longe, apenas um exercício físico. Ele é sobretudo algo mental, envolvendo uma gama de disciplinas que inclui desde física a nutrição, passando por uma série de pesquisas que, diariamente, trazem dicas importantíssimas. E uma das melhores formas de se manter antenado com o mundo de conhecimento produzido, obviamente, é absorvendo o máximo possível dele. No meu caso, sou assinante da Revista Contra Relógio, tenho um feed incrível no FlipBoard (que junta os tweets das principais personalidades do ramo em uma espécie de revista online) e ouço audiolivros e podcasts enquanto corro. Tudo por puro prazer e, claro, buscando evitar me transformar naquele chato que não tem outro assunto. Aliás, eu dificilmente falo de corrida em rodas de amigos (mesmo porque um dos males de se treinar sozinho é ter poucos amigos corredores). Mas a Web está aí justamente para isso, né?

5) Paixão: Correr é um hábito que muda a vida completamente – e não há hábito que sobreviva sem paixão. Eu amo as horas que passo sozinho no asfalto, pois elas são o (pouco) tempo que tenho para me dedicar, com exclusividade, a mim mesmo. Às vezes, quando uma corrida sai errado, quando o overtraining gera fadiga mental ou quando fatores externos desgastam a mente de tal forma que o corpo também sofre, a motivação acaba sendo atingida. Com ela, claro, a paixão por correr também sofre. Não há muito segredo aqui: é só dar um tempo – sejam alguns dias ou mesmo semanas -, se inscrever em alguma prova qualquer e, logo logo, a vontade insana de sair pela rua reaparecerá. Cuidar da paixão pelo esporte é fundamental para que se consiga praticá-lo, afinal.

Nesses próximos meses até Comrades pretendo ainda me aprofundar mais em cada um desses 5 itens, todos fundamentais para mim. Mas, mesmo de forma resumida, eles explicam bem como é correr para mim: um exercício de autoconhecimento, sensação de evolução, perseverança, prazer e, sobretudo, amor. Amor a si mesmo, diga-se de passagem – pois, no fundo, mesmo que corredores tenham o (desnecessário) hábito de se martirizar ao dizer que fazem uma maratona por alguma causa nobre qualquer, todos corremos por nós mesmos e mais ninguém.

E isso não é ruim: abraçar o próprio egoísmo eventual é também uma das ferramentas que levam ao autoconhecimento.

 

 

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