A mente como obstáculo da recuperação

Todo tipo de lesão traz consigo uma perigosa capacidade mental de adaptação.

Se você quebra uma perna, logo se habitua a andar de muletas; se tropeça de maneira mais forte, em segundos passa a “mancar perfeitamente”; e assim por diante.

Talvez essa adaptabilidade seja fruto de todo um processo evolucionário sintonizado à perfeição para os nossos ancestrais, dando a eles condições de trocar reclamações inúteis pela essencial busca por alimento.

Mas já faz tempo que deixamos a era paleolítica e, hoje, essa mesma característica de sobrevivência funciona como uma espécie de armadilha mental para a recuperação. Ao se acostumar com uma lesão e com os artifícios para evitar que ela piore – como correr sempre a um ritmo mais lento e evitar provas mais intensas – a recuperação como um todo deixa de ser algo que se persegue e passa a ser algo do qual se está fugindo.

Há duas semanas, uma pancada no joelho me fez mudar todo o ritmo de treinos: correi longões, tempo runs e praticamente matei corridas em ladeiras. A ideia era me poupar – algo, aliás, que chega a ser óbvio como receita para recuperação.

Mas a questão é que a dor só vinha quando eu corria de forma mais intensa – e que, ao evitar corridas fortes, evitava não apenas a dor como também a noção de sua existência ou não.

Hoje, no meio do percurso, resolvi mudar de atitude: em um treino que deveria ser leve, encarei a subida da Ministro e voei ladeira acima.

Curiosamente, as pontadas pequenas que se fizeram presentes no início foram cedendo até desaparecerem. Cheguei ao topo cansado – mas inteiro. Apalpei o joelho e nada, nem sinal de dor. No caminho de volta, desci e subi outras ladeiras, sempre inteiro.

Ainda não posso dizer que esteja 100% – fato é que ainda senti uma ou outra pontada. Mas dá para dizer que um dos principais componentes de uma lesão – o medo de ter consciência da recuperação – sumiu. Ficou lá no começo da ladeira, antes da subida.

A partir de agora, acho que o ritmo será outro. Sábado tem longão, que ainda farei de forma leve, e domingo tem regenerativo na bela trilha do Ibirapuera. E semana que vem é hora de voltar a todo vapor.

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