Comentários sobre as dicas de treinamento de Comrades da Contra Relógio

Em primeiro lugar, devo abrir esse post deixando claro que tenho bem menos experiência que o Tomaz Lourenço, editor da Contra Relógio, tanto do ponto de vista de pesquisa quanto de corrida prática (seja ela normal ou uma ultra como Comrades). Mas, como vivemos em um país livre, nada me impede de questionar um pouco as dicas dadas por ele na edição 244 da revista, de janeiro de 2014.

Na falta de argumentos empíricos próprios (uma vez que farei minha primeira Comrades em junho desse ano), utilizarei artigos e dicas de outros corredores, de amigos reais ou virtuais a lendas como Bruce Fordyce (que venceu 9 vezes a prova) e ao técnico oficial da organização, Lindsey Parry.

Apesar de não deixar muito claro, o texto dá a entender que as dicas são para novatos na corrida. O GRANDE problema é que a carga de treinamento sugerida é tão intensa que, se o novato não tiver uma base ultra sólida, muito provavelmente quebrará no meio do caminho.

Segundo Lourenço, ele dividia a semana em 3 dias dedicados a musculação e 3 dias a rodagem, deixando um para descanso completo. Até aí, muito embora eu discorde da divisão de tempo, nada demais. O problema aparece na descrição da rotina de corrida.

A cada semana ele somava 10 minutos nos dias úteis e 20 minutos no longão do domingo, sem nenhuma semana de queda na quilometragem para “acomodar” a musculatura. Na 16a semana ele chegou a um volume que considero quase assassino: 3h30 de corrida na terça, 4h00 na quinta e 7h00 no domingo! E não parou por aí: deste ponto em diante, manteve os treinos em dias úteis no mesmo patamar e continuou aumentando o longão, que chegou a 8h00. Em outras palavras, ele passou algum tempo correndo duas maratonas e uma ultra POR SEMANA. Seu pico foi de 170K.

Para comparar: a planilha oficial para quem estiver buscando a medalha de prata (ou seja, chegando em sub 7h30) tem um pico de 130K em uma semana – quase uma maratona inteira a menos do que Lourenço fez. É a mesma rodagem que eles propõem para quem estiver atrás da Bill Rowan, com variação apenas na intensidade. Para novatos que querem apenas completar, eles recomendam um pico na casa dos 80K (menos da metade da Contra Relógio).

Como minha reação ao ler a matéria foi de frustração – afinal, ela abre dizendo que qualquer um pode fazer Comrades (que concordo) e segue apresentando essa carga kamikaze – dedidi fazer esse post.

Em defesa da CR, destaco que em momento algum a revista posiciona o treino como uma planilha ou recomendação oficial, sendo mais focada mesmo em compartilhar a experiência de seu editor. Mas, justamente por ser uma das principais revistas do ramo, matérias assim podem ser até mesmo perigosas para leitores que, inspirados pelas dicas, decidirem seguir o exemplo e acabarem se lesionando de maneira mais séria.

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12 comentários em “Comentários sobre as dicas de treinamento de Comrades da Contra Relógio

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  1. Ricardo,

    Li seu texto duas vezes, pensei e repensei para iniciar o meu comentário. Acompanho sua linha de raciocínio quanto à eventual prescrição de treinos em excesso, resultando em overtraining.

    Ocorre que: por não ter lido a Contra Relógio, dúvidas me ocorreram, vejamos:

    1) Quando ele citou o aumento gradual de 10 minutos nos dias úteis e 20 minutos no longão do domingo e depois quando referiu-se ao tempo de treino (3:30; 4:00 e 7:00) ele fez alguma correlação com Kms?

    ou

    2) A distância semanal apurada é uma inferência matemática sua, baseada em seu ritmo usual?

    Vou explicar o porque: nas duas oportunidades que lá estive na África do Sul, fui almejando metas possíveis (sub 9 horas). Nem que fosse 1 segundo.

    A bola bateu na trave nas duas oportunidades. Na primeira por 6 minutos (09:06) e na segunda por 16 minutos (09:16).

    Na divisão do trabalho, fiz algo semelhante ao que ele prescreveu: 4 dias de corrida, 2 de fortalecimento muscular e 1 de descanso total (segunda-feira).

    Na primeira oportunidade o treino maior foi 60 Km, sem me preocupar com as horas gastas, sendo que também, corri uma Maratona oficialmente – 42 Km (cerca de 30 dias antes da Comrades. Os demais ficaram por volta de 28 a 32 Km.

    Na segunda oportunidade, por conta de uma lesão na inserção do tendão do tibial posterior, fiz um treino limitado a minha sensação de dor e de esforço. Naquela ocasião, meu maior treino foi 25 Km.

    Em breve resumo, me lesionei em 06 de abril e só consegui fazer uma rodagem maior (24 Km) faltando 30 dias para a prova. Dali para frente, tentei recuperar o tempo treinando mais vezes na semana 5 no máximo, 1 dia de fortalecimento muscular e 1 dia de repouso total.

    A diferença de um treino para o outro era que na primeira ocasião eu rodava os Kms correndo o tempo todo e na segunda vez rodava 200 metros caminhando e 800 metros correndo.

    É evidente que o tempo gasto em horas com os treinos eram bem maiores no segundo momento, o pace aferido ficava acima de 06:30 min/km, e assim mesmo, acabei tendo um desempenho semelhante.

    Sou da opinião que em treinamento para Ultramaratona não existe uma receita de bola mágica.

    Penso que as planilhas existem para facilitar e organizar os treinamentos, todavia, existe o princípio da individualidade biológica que é o divisor de águas para a conclusão da empreitada.

    Outro pensamento que carrego de longa data é: “treinar sozinho, sem avaliações e acompanhamento profissional adequado pode se tornar muito caro para o atleta”.

    Mas antes que eu prossiga no debate, e emita um juízo de valor, por favor me responda às duas perguntas acima.

    Ultra abraço,

    Dionisio Silvestre
    http://correrpurapaixao.blogspot.com.br/

    1. Oi Dionísio.

      Ele não detalha a sua planilha semanal, mas dá sim informações (como o pico em Kms) que permitem se cruzar com o tempo e chegar a um pace médio.

      Mas a minha crítica em si não é sobre o treinamento dele – afinal, se funcionou para ele, então foi perfeito.

      O que não gostei da matéria foi dela se posicionar como uma espécie de receita para se completar a Comrades, dando a entender que basta qualquer um (incluindo super novatos) aplicá-la e pronto.

      Concordo contigo que não há uma fórmula mágica – treinamentos são essencialmente individuais. Mas quando uma publicação do calibre e alcance da Contra Relógio coloca algo assim, inclusive na contramão de outras dicas vindas de fontes altamente respeitáveis, ela pode acabar induzindo a erros que sairão bem custosos.

      Entende?

      1. Ricardo,

        Leitura perfeita.

        É temerário a conduta de um periódico de tão grande alcance, em propagar informações dessa importância, sem se preocupar com eventuais efeitos danosos, resultado da sobrecarga de treinamento.

        É claro que a Comrades merece o seu devido respeito, o percurso é altamente seletivo, os amigos que por lá correram e continuam a correr se dedicam, dentro de suas individualidades.

        Parabéns pelo post. Ultra abraço e bons treinos!!!

        Dionisio Silvestre
        http://correrpurapaixao.blogspot.com.br/

    2. Palpitando:

      Alguns corredores e treinadores recomendam quilometragem semanal elevadíssima para a maratona, por exemplo. Coisa de mais de 100km no pico. Acho realmente exagerado… Acho que essa metodologia foi transportada pra Comrades. Como já disse antes, os treinos longos são fundamentais – distância e tempo em exercício. Prefiro fazer poucos e bons treinos, com volume total semanal menor. E tem uma frase que eu gosto muito: “se quer treinar como profissional, precisa descansar como profissional.”

      Suas críticas são muito pertinentes. Quero fazer apenas um comentário sobre “qualquer um fazer a Comrades”. É interessante porque humaniza a corrida. Não é necessário ser um sujeito com capacidades especiais… Porém… Muitos dedicados corredores se machucam mesmo correndo devagar 5 ou 10 km. A meia maratona já representa um grande desafio. Praticamos um esporte seletivo e de grande impacto. Simplificar as coisas tem o lado democrático, mas pode colocar pessoas sem a devida preparação numa situação de risco. A Comrades não é apenas para pessoas especiais, mas exige muito treino e alguma experiência. E fracasso é uma possibilidade, principalmente nos treinos. Acho que a partir da maratona, é preciso muito respeito, sempre. Alguém pode comprar uma revista e se meter num grande problema…

      Aproveite as dicas do Nato Amaral, nosso simpático embaixador da Comrades. É o brasileiro mais experiente por lá!

      Abs

      Obs ter funcionado não significa que é uma boa estratégia. Pode ter dado certo, apesar disso…

      1. Totalmente de acordo Álvaro. Eu complementaria dizendo que a Comrades é para qualquer um – desde que qualquer um esteja disposto a suar bastante, ser altamente disciplinado e se dedicar com meses de antecedência a um objetivo claro 🙂

  2. Olá Ricardo,
    Acho que não nos conhecemos.
    Será a sua primeira Comrades?
    Conte comigo no que precisar.
    Um abraço,
    Nato Amaral
    Obs.: só hoje tive conhecimento desta página aqui no FB

    1. Oi Nato! Legal vc aparecer por aqui – me sinto honrado em ter o
      Unogwaja brasileiro aqui no blog. Tenho acompanhado o seu trajeto online e ele, por si só, já responde a dúvidas, inspira e ajuda mais do q imagina!

      E sim, será a minha primeira Comrades – e para a qual tenho me preparado até a alma!

  3. Oi Ricardo, achei interessante este contraponto. Minha carga máxima para maratona foi um pico de uma semana de 80Km. Com isso tive que treinar 5x, o que para mim já é um absurdo pois não consigo concilar com o meu dia a dia. A planilha de Tomaz é lógica, e fácil de seguir, pois para engenheiros como eu apresenta uma sequencia de fácil entendimento, porém aquele pico de 170Km no momento não posso cumprir nunca. Gostei do fato de ter 3 treinos na semana que é o que posso fazer, porém esta carga nunca. Creio que poderia adaptá-la para ficar com uma carga máxima de 100Km semanal. Como a CR é ‘mais’ voltada a performace, e como sou pangaré mesmo, o que faço é ler os seus arquivo e aplicando para mim um fator ‘pangarético’ que geralmente aumenta o pace em 30 segundos do que eles propoem. Estive esta semana analisando a sua e ela apresenta um ‘flat’ de quase 80Km por semana por quase 15 semanas. É quase o período de treinamento que faço para uma maratona. Para mim é demais. Se for fazer a Conrades, planejo para 11 horas. Como tenho maratonas para 4h, creio que vou aliviar mais a carga para só completar esta prova. Bons treinos e fique em paz.

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