Bati um papo com Bruce Fordyce

Dia desses, o Nato Amaral postou um comentário aqui no blog me falando para não esquecer de responder ao Bruce. Não entendi nada – mas depois acabei checando, no email, que ele havia feito a ponte entre o Bruce Fordyce, o maior ícone da história de Comrades, e eu. Instantes depois, ele acabou se colocando à inteira disposição para bater um papo e responder a algumas perguntas sobre a prova aqui para o blog – oportunidade instantaneamente e efusivamente aceita por mim.

Para quem não conhece, Bruce Fordyce é recordista de vitórias em Comrades: ganhou a prova 9 vezes, das quais 8 foram consecutivas. Além dessas, teve ainda um segundo e um terceiro lugar em um total de 30 participações. A dúvida que ficou foi: como selecionar algumas perguntas (dentre as tantas possíveis) para um cara desses?

Fiz o meu melhor – e aí vai o que ele me disse:

 

Rumo a Comrades (RC): Se você pudesse resumir, em uma palavra, o que a Comrades significa para você – tanto como sul africano quanto como um dos maiores ícones do evento – qual seria ela?
Bruce Fordyce (BF): Coragem.

 

RC: Como você acredita que a Comrades se transformou em um evento tão incrível e gigantesco? Afinal, é realmente raro ver uma ultramaratona assumir essas proporções!

BF: A Comrades cresceu de forma muito rápida nas décadas de 70 e 80 por conta da cobertura ao vivo, por 12 horas, na televisão. Sul africanos de todas as raças, incluindo os que não curtiam o esporte, assistiam (como ainda assistem). Devido ao Apartheid, a África do Sul passou muito tempo isolada do mundo e, por conta disso, nos voltávamos para o que havia dentro do nosso país – como a Comrades.

 

RC: Todos os que eu conversei sobre Comrades concordaram que descrever o percurso e a corrida era uma tarefa difícil – principalmente por tudo o que está envolvido nos seus 87 ou 89km, incluindo uma montanha russa emocional pela qual corredores normais passam. Na sua opinião, quais os trechos mais chave do percurso, os mais difíceis e desafiadores?

BF: As 5 maiores subidas (Cowie’s Hill, Fields Hill, Bothas’s Hill, Inchanga, Polly Shortts) são muito difíceis. No percurso de subida, pessoalmente, eu acho o trecho de Harrison Fats muito desafiador para a mente; no percurso de descida, o de Pinetown é mais complicado. Mas, claro, não se deve ignorar outras subidas complicadas na corrida em ambos os percursos (Camperdown, Ashburton, 45th Cutting etc).

 

RC: Comrades é diferente não apenas por ser grande, mas por ser uma ultra de rua (uma vez que a maior parte das ultras acontece em trilhas). Isso faz ela ser mais rápida – mas também mais dura para as pernas. Na sua opinião, quais as principais diferenças no processo de treinamento, tanto para novatos quanto para corredores mais experientes?

BF: Por muito tempo não havia ultras em trilhas que fossem muito representativas. A maioria realmente era em estradas, como World champs, Nacht van Vlaanderen, London to Brighton, Two Bridges e Two Oceans). Trilhas começaram a pouco tempo – mas não corro muito bem nelas. O treinamento é o mesmo que para uma maratona tradicional, porém com um pouco mais de longões lentos.

 

RC: Que dicas você daria para corredores no dia da prova, principalmente quanto a estratégia de pace, nutrição e “controle mental”?
BF: Eu sempre digo a corredores para começarem muito devagar principalmente nos primeiros 20km, que parecem mais fáceis. O sucesso em Comrades vai para os que são covardes no começo e heróis no final. Minha dica é comer e beber o que já estiverem acostumados, sem nada de novo no dia. Corra a prova de marco a marco, de etapa a etapa, e ignore os marcadores de distância (que são em ordem inversa, fazendo contagem regressiva).

 

RC: Como, exatamente, você treina a sua mente para uma prova como a Comrades – principalmente considerando a sequência de vitórias que já teve? Há algumas dicas que gostaria de compartilhar?

BF: Quando a prova se aproximava eu começava a fazer exercícios de “visualização” durante os treinos – por exemplo, imaginando que estava em Polly Shorts ao durante uma subida mais íngreme. Essas visualizações eram espontâneas, mas “funcionavam”apenas no mês da prova e de forma natural. Hoje, no entanto, já não consigo mais fazer isso por não estar mais tão em forma (e, portanto, acabaria sem conseguir convencer o meu cérebro!).

Além disso, eu sempre conferia a minha planilha de treino e a comparava ao calendário, o que me dava respostas para perguntas importantes (por exemplo, se conseguiria correr 10km em menos de 30 minutos). Dependendo da resposta e do sucesso do treino, eu entrava mais confiante já na quinzena antes da largada.

 

RC: Você poderia falar um pouco mais sobre a Complete Marathons, projeto no qual está envolvido agora?

BF: Acesse o www.completemarathons.co.za . Estamos oferecendo a todos os corredores de Comrades alguns dias especiais incluindo passeios pelo percurso, bag drops e uma festa no dia seguinte à prova. Esse projeto começou quando alguns corredores australianos reclamaram que a Comrades era incrível – mas que o dia posterior era um pouco frustrante pela falta de atividades. Eles queriam conhecer outros corredores e compartilhar suas experiências – mas isso não era possível. Pelo menos até agora!

 

Bruce-Fordyce-Comrades-Finish-Line

 

6 comentários em “Bati um papo com Bruce Fordyce

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  1. Ricardo,

    Se antes da prova você já demonstra toda essa paixão pela Comrades, imagine quando você participar e completar a corrida dentro de sua meta.

    Parabéns pela postagem, ficou espetacular, gostei do projeto do Bruce Fordyce, sobre o dia seguinte da prova. Em regra os Brasileiros acabam se reunindo em um determinado local, começam a tomar o café da manhã, alguns compram o jornal que contém inúmeras reportagens sobre o dia anterior, fotos, resultados, enfim, passam o dia na resenha e o assunto: “Como foi sua prova individualmente”.

    Agora, aquele trecho que não foi traduzido – é para o pessoal ir começando a exercitar o inglês de sobrevivência?

    Ultra abraço e nos vemos no caminho!!!

    Dionisio Silvestre
    http://correrpurapaixao.blogspot.com.br/

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