Ansiedade metafísica

Hoje é sexta-feira.

A essa altura, a cidade já respira a prova. Em todo lugar há apenas dois olhares: o dos corredores ansiosos e o dos espectadores, sejam familiares ou locais, que acabaram também contagiados pelo clima.

Cidade calma, relaxada, quase parada no tempo? Sim: essa é Durban. Exceto se você decidir conferir o calçadão nas primeiras horas da manhã ou no impressionante pôr do sol. Aí, sim, em uma inversão completa da lógica, o horário do rush fica explícito – mas traduzido em passos rápidos ao invés de buzinas ou roncos de motores.

Amanhã é sábado.

Descobri que foi em Pietermaritzburg que Gandhi foi desalojado de um trem por ser “colorido”, como chamam os indianos aqui, e começou a formular a Satyagraha, sua filosofia de não violência.

Anos depois, Mandela saiu de décadas em prisões infernais para assumir a presidência vestindo um manto de paz que possivelmente salvou o país de uma guerra civil racial. O voto dado por Mandela nas eleições de 1994 – a primeira depois do regime do Apartheid – foi dado em uma escola nas proximidades de Durban.

E entre esses dois momentos no tempo, entre essas duas cidades, um soldado sul africano concebeu uma ultramaratona de 90km como forma de homenagear seus colegas de batalha que tombaram lutando pela paz na I Guerra Mundial: a Comrades.

A largada será em dois dias, no domingo.

A ansiedade dos que correrão certamente tem algo de metafísico, de espiritual: ela é parte de uma homenagem invisível a homens que lutaram contra o que há de pior na humanidade – preconceito, tortura, assassinato – e conseguiram impor alguma dose de compreensão coletiva que parecia haver desaparecido no tempo.

De certa forma, é como se a energia de Gandhi e Mandela, fortalecida por Clapham, ajudasse a empurrar cada um dos corredores da ultra pele percurso. A meu ver, aliás, é impossível sequer imaginar uma explicação não metafísica responsável por fazer, todo ano, 18 mil pessoas se inscreverem em uma corrida de 90km.

Energia demais, concentrada, começa a explodir antes do tempo em forma de ansiedade. Em forma daquele senso de eletricidade instantes antes do choque, do raio que sempre antecede o relâmpago, da linha de largada antes do tiro.

Durban, hoje, está assim.

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