O fim da jornada na Comrades

O dia amanheceu ansioso, como já era de se esperar. Às 3:30, quando desci para o café, já encontrei muitos dos novos amigos que fiz aqui na África do Sul – corredores brasileiros fantásticos, alguns de elite e outros muito próximos disso, que já deram significado ao conceito de camaradagem no instante em que nos cruzamos.

E, assim, juntos seguimos até a largada, na prefeitura de Pietermaritzburg. Confusão? Nenhuma. A organização da prova foi simplesmente inacreditável.

Já na baia C, onde larguei, Shosholoza deu o tom da emoção enquanto 20 mil corredores faziam coro entre vozes e lágrimas.

A partir daí foi ouvir a tradicional Carruagens de Fogo, o galo cantar, o tiro e pronto. Começava a jornada.

Os primeiros quilômetros

Já na saída de Pietermaritzburg, o primeiro dos morros – Polly Shortts – avisa que o percurso não será fácil. Foram quilômetros de subida dura, ainda no escuro, que acabei encarando dentro do meu plano original de correr por 30 minutos e andar por um.

Havia elementos que ajudaram a dar mais energia: além do próprio fato de estar ali, uma inacreditável multidão já se alinhava no percurso desde as 5:30 gritando os nomes dos corredores (estampados no número de peito) e as nacionalidades.

Trechos lotados alternavam com trechos mais isolados em zonas rurais – mas mesmo estes sempre tinham pelo menos um pequeno grupo de pessoas. Impressionante.

Depois, um espetáculo à parte: o nascer do sol na Savana. Incrível, colorido, forte. Dava para se perder e esquecer o esforço por um tempo.

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O meio

Há um momento em que se começa a entender que a Comrades não é brincadeira. Para mim, esse momento veio por volta do quilômetro 56 – marco psicológico da maior ultra que fiz até então (a Two Oceans, em 2013). Ali, tudo começava a doer – subitamente.

A lombar começou a gritar, o tornozelo esquerdo endureceu, as coxas sentiam punhaladas da faca invisível do cansaço.

Comer deixava de ser uma opção: cada gel ou isotônico que tomava dava ânsia de vômito. Fui, assim, apenas com água e embalado por algumas batatas que havia comido antes.

Mais alguns quilômetros para a frente decidi comer um biscoito de maizena que espectadores estavam dando. Desceu.

Mas apenas um.

A fome começou a bater com o cansaço. Como não conseguia comer nada, cedi ao segundo inimigo e comecei a caminhar por mais tempo – principalmente pelos morros que iam e vinham como se fossem cotidiano.

Depois de um tempo, andar doía mais do que correr. Aí trotava até a dor me fazer andar. E andava até a dor me fazer correr.

A fome crescia e, já em uma espécie de desespero, tomei uma Fanta em um dos postos de apoio. Isso mesmo: Fanta e Coca são integrantes sempre presentes nos postos. Estranhamente, funcionou.

A partir de então, refrigerantes passaram a fazer parte do percurso para mim.

Em um momento, as endorfinas fizeram tudo ficar mais emocional ao ponto em que, ao me dirigir para um grupo de torcedores que gritava o meu nome, agradeci a África do Sul e comecei a chorar. Olhei para um lado e para o outro: nenhum conhecido. Limpei as lágrimas e continuei.

E fui.

E fui.

O cheiro dos churrascos feitos pelos espectadores nas ruas começava a enjoar. Não apenas a mim: àquela altura, lá pelo km 70, o que mais tinha era corredor vomitando ou sendo levado por médicos. A coisa estava ficando dura.

Minha meta era pegar uma medalha sub-11, de bronze – e idealmente chegando em 10:30. Estava fora de cogitação.

Em um dado momento, com o cérebro meio troncho, fiz uma série de contas erradas e me convenci de que sequer conseguiria chegar antes das 12 horas. O erro foi bom: acelerei o passo.

A chegada

Faltando 10km para chegar olhei para o relógio. Se corresse MESMO, ainda conseguiria chegar abaixo das 11 horas e conquistar a medalha de bronze. A questão era: como conseguir energia para correr – sem tempo para caminhada alguma – por 10km, depois de ter já passado por 79?

Há coisas em ultramaratonas que são meio inexplicáveis. Uma delas é esse súbito surgimento de energia do além, alguma força que parece te empurrar para um outro território mental e que força o corpo a ceder por completo à vontade.

Corri. Muito.

Corri pelos últimos morros, acima e abaixo, entrei em Durban, passei batido e ignorando postos de hidratação, esqueci fome, sede, dor, tudo. Apenas corri.

Faltando menos de 1km, já nos arredores do estádio, olhei para o relógio: conseguiria.

Apertei mais o ritmo.

Na chegada, quando o relógio marcava 10:52, um corredor ao meu lado simplesmente desmaiou de cara para o chão. Médicos pularam para socorrê-lo.

10:53.

A multidão no estádio era incrível: dá para se sentir um atleta olímpico. Nas arquibancadas e se empurrando nos alambrados, todos gritam o seu nome e fazem um barulho ensurdecedor enquanto o microfone grita tempos, horários limite e assim por diante.

10:54.

Linha cruzada. A energia que existia sumiu. Por completo.

Estava acabado – mas já às lágrimas quando uma moça colocou a medalha em volta do meu pescoço.

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Foram mais de 7 meses de preparação, de ansiedade, de acordar antes do sol raiar. Planos, disciplina, amor à prova. Vontade de poder vestir, com orgulho, o emblema da Comrades. E consegui.

Aquele instante ficará para sempre imortalizado para mim – assim como os tantos novos amigos que fiz nessa jornada e que permanecerão daqui para a frente.

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Agora, sentado em um café de frente para o mar em Durban, com o corpo ainda se recuperando do esforço e um tornozelo que parece acimentado à perna, sou só orgulho. Curiosamente, não de mim por ter concluído essa prova, mas da Comrades como um todo que, de tão incrível, acabou virando parte de mim.

Uma nova fase começa agora para mim. Não sei bem qual e nem o que farei como próxima meta – mas sei que, o que quer que venha, certamente será facilitado pela experiência de ter passado pela Comrades, que me transformou em outra pessoa.

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20 comentários sobre “O fim da jornada na Comrades

  1. Simplesmente magnifico, tira as lagrimas, me imaginei ali, como tenho feito a alguns anos, como li em algum lugar, ela te define, e assim o fez. PARABÉNS, começa a minha caminhada á 2015! Espero conseguir colocar esta pequena Gigante medalha no meu pescoço um dia…abraço

  2. Primeiro meu obrigado pela 100ª vez por ter me convidado e motivado vim para esse desafio… tudo isso que escreve é o espírito da comrades, passei por td isso tbm, apenas comecei na coca no km 30, o gel desceu só 5 packs e depois a laranja salvou… a chegada no estádio é coisa de cinema, não tem preço!

  3. Sinceramente é emocionante. Estou me preparando para a Comrades 2015. Este ano estou fazendo as maratonas do Brasil, vou em 6 maratonas, já fiz Brasília e Porto Alegre em maio e mantenho os treinos para outras quatro. Estou fazendo uma boa base e a partir de 16 de novembro, pós Maratona de Curitiba, foco total na Comrades. Obrigado pelo relato, foi emocionante para mim. É muito importante receber estas informações e emoções.

    • Eu é que agradeço pelas palavras Ronaldo. Espero que venha e que curta essa prova – ela realmente muda a nossa vida e visão de mundo!

      Se eu puder deixar três dicas, diria para:

      1) Caprichar no qualify em uma das maratonas para conseguir um local bom de largada

      2) Treinar subidas (pois ano que vem será up-run).

      3) Nunca, jamais, em nenhum momento durante a prova, pare para fazer massagem. Parar é fatal pois seus músculos possivelmente travarão e você não conseguirá se mexer. Sempre se mantenha em movimento – e se certificando de que cada passo dado será rumo à chegada!

      Fora isso, é só preparar a mente e embarcar. Ultramaratona assim não é corrida – é um esporte totalmente diferente.

      Boa sorte!

  4. Parabéns Ricardo!Foi uma honra compartilhar com você os primeiros momentos desta épica jornada. No seu relato você resumiu o sentimento de todos Comrades,novatos ou veteranos. Seu blog, aliás, fui um norte para muitos que como eu estavam em busca de informações e motivação para os treinos. Grande abraço,
    Shosholoza!

  5. Grande Ricardo, agora vendo as fotos lhe reconheci, chegamos a correr alguns momentos juntos, era o Eduardo com o nome Cracrá e a bandeira do Brasil nas costas, desculpe-me pela timidez e falta de educação em não lhe cumprimentar, parabéns.

  6. Parabéns!! Essa corrida é mesmo mágica! O seu blog virou referência sobre o tema, muito legal. Foi bacana acompanhar toda a jornada. O Bruce diz que a certeza do retorno chega quando as dores passam… A conferir! Essa história merece um back to back. Abraço

  7. Pingback: Como estou pós-Comrades | Rumo às Trilhas

  8. Pingback: Meu agradecido adeus à Comrades | Rumo às Trilhas

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