De volta.

Há alguma coisa sobre a África. 

Os cheiros, as cores, os cantos em coro, os sons de maneira geral. A pobreza, intensa, parece apenas somar pinceladas mais densas na selvageria do que, um dia, foi a vida de todos nós. Pensamento frio, cruel talvez, característico de quem nunca realmente viveu uma situação de necessidade como as almas que cruzam os guetos africanos em busca de sobrevivência. 

Ainda assim, é uma busca diferente de sobrevivência. Enfrenta-se a aridez do solo, o azul dos oceanos, o calor e o frio; enfrenta-se leões e rinocerontes de um lado, tubarões brancos de outro; enfrenta-se a metáfora mais crua e intensa da vida, em seu sentido mais biológico, mais físico e metafísico. 

Há um tipo de intensidade em todo aquele continente que, ao menos para mim, funciona como uma espécie de ímã. 

Este ano, como todos, tem Comrades. Edição de número 91. 

Este ano, diferente dos últimos dois, eu não irei. Considerei que meu ciclo na Comrades havia terminado com a back-to-back, que eu já tinha cumprido meu papel nessa prova histórica onde se corre muito mais com o espírito do que com as pernas, onde se enxerga o percurso com a boca do estômago e não com os olhos. Ledo engano. 

Talvez eu até tenha corrido a minha cota da Comrades – mas a Comrades não me correu o suficiente. 

Eis a África. De alguma forma, ela acaba achando algo em você e te atraindo, colando um desejo primal de estar nela, de fazer parte dela, de respirar seus ares e pisar em seus solos. 

Difícil ver meus tantos amigos que fiz nessa prova partirem para mais uma edição e ficar para trás, apenas observando e torcendo. Difícil acompanhar esses sagrados 89km pela tela de um computador. Difícil não cansar na Polly Shortts, não enxergar Durban a distância, não passar horas cantarolando Shosholoza, não dizer “sawubona” como os zulus. 

Há cerca de um ano fiz um post aqui neste blog fechando, oficialmente, a minha participação. 

Cancelo o post antigo e deixo este novo. 

A África não me verá neste ano de 2016 – mas me verá nos próximos. Pelo menos nos 8 próximos. 

A meta agora é um green number.

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9 comentários sobre “De volta.

  1. Pingback: De volta. | Rumo às Trilhas

  2. Aí sim guerreiro… a Comrades por si só, possui ingredientes que nos permitem alçar voos maiores e com a sua maravilhosa presença, narrando e desenhando (como poucos) as matizes e horizontes da aventura, a prova será ainda mais significativa. Sensacional a notícia !!! Shosholoza.

  3. Fiquei muito feliz com seu texto, Ricardo! Sempre acompanhei seus treinos e relatos por aqui, que me inspiraram ainda mais no sonho de participar da rainha das ultramaratonas. Infelizmente esse ano, apesar de inscrito, não poderei fazer minha estreia por contingências particulares. Mas ano que vem, se Deus quiser, estarei lá com você, demais brasileiros e atletas de todos os continentes nessa corrida que é um grande sonho e desafio!

  4. Olá, Ricardo!

    Seja muito bem vindo de volta. Os leitores agradecem! Seus textos são ótimos e os envolvendo a Comrades são os meus preferidos.

    Proposta de longo prazo mirar no green number, hein… Penso em fazer mais algumas subidas, mas não tenho a meta tão longa. Esse ano também estarei ausente. Entre outros motivos, não gostei tanto da descida…

    Um Abraço,

    Alvaro

  5. Huhuuuuuuuu

    Dá-lhe Ricardinho, você é fera demais, seu blog ajudou tantos a conseguirem obter êxitos na Comrades, eu fui um deles e ver ele de volta é para nós um motivo de muita ALEGRIA.

    Não sei se encararei o Green Number, mas também não iria para o Back to Back e fui, não iria mais voltar e cá estou eu a véspera de embarcar para mais uma aventura Comradeana.

    Não será a mesma coisa sem os amigos destes dois anos, mas novos amigos chegaram e chegarão, principalmente com incentivos feito este seu de retornar o RUMO A COMRADES, com toda certeza estaremos cantando juntos novamente o SHOSHOLOZA.

    Forte Abraço do seu Amigo Cracrá

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