A decisão

“Será algo para as minhas duas filhas se orgulharem de mim no futuro, quando já tiverem idade de entender a magnitude desse projeto”, disse à minha esposa na mesa do café da manhã. 

“Sem sombra de dúvidas. Não é um projeto qualquer”, ela concordou. 

Do outro lado da mesa, Isa, minha mais velha, parou o que estava fazendo e perguntou do que estávamos falando. Respondi e, prontamente, ela desceu da cadeira, desviou o carrinho de bebê onde a irmã dormia, voou até o seu quarto e, em segundos, voltou. 

“Eu tenho um real inteiro em moedinhas. Posso te dar tudo para ajudar as crianças.”

Era o que faltava para me convencer a me candidatar para o time dos Unogwaja 2018. 

***

Existe toda uma história por trás dos Unogwaja – história que, eventualmente, contarei por aqui. Por hora, basta dizer que se trata de uma jornada de 11 dias de duração, sendo 10 deles cruzando a África do Sul em cerca de 1.650km, e o décimo primeiro correndo a Comrades, mais importante ultramaratona do mundo, com 89km. Mas essa é apenas a parte final da jornada. O começo inclui meses de treinamento intenso, preparo físico e mental e de arrecadação de fundos: cada um dos 12 atletas selecionados mundo afora terá uma responsabilidade pessoal de levantar 50.000 Rands (algo como R$ 12 mil) a serem doados para instituições de caridade africanas. 

A conversa que tive na mesa do café da manhã com minha família foi no dia 2 de julho deste ano. No dia 3, data em que as inscrições abriam, submeti a minha candidatura logo pela manhã. 

***

Um mês inteiro já se passou. Nesse período, munido de alguma confiança qualquer de que eu efetivamente seria aprovado pelo grupo, comprei uma bike, reaprendi a pedalar, entrei em uma assessoria e fiz o meu primeiro calendário de treinos híbridos, mesclando ciclismo com corrida. 

Hoje, dia 3 de agosto, é a véspera do fechamento das inscrições. Há ainda um longo mês de espera – somente no dia 1 de setembro é que os atletas parte do time serão oficialmente anunciados. 

Em outras palavras: estou, hoje, treinando duro e me preparando física e espiritualmente para um futuro que sequer sei se chegará. 

Mas, no fundo, a vida inteira não é exatamente assim? Um preparo intenso para um futuro que, na prática, não temos ideia quando ou mesmo se virá? 

O importante, creio – tanto na vida quanto nesta jornada pessoal – é tomar a decisão que se faz necessária e seguir em frente. 

Um passo depois do outro. 

Sem parar. 

4 comentários em “A decisão

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  1. Nobre amigo Ricardo!!! a quem admiro tanto pela maneira ímpar no trato literário, quanto ao entusiasmo e dedicação que emprega nas empreitadas e desafios de corrida… o que comentar nesta hora? – Confiar e perseverar!!! Assim seu sonho se concretizará, pois os outros generosos atributos de doação ao próximo, nasceram junto contigo. Shosholoza!!!

  2. Fantástico Ricardo ! Conte com meu apoio, incluindo para levantamento de fundos. E se tiver flexibilidade em alocar recursos tenho um “pet projeto” : ajudar a comprar uns frangos para uma comunidade pobre. Os primeiros 2 mil usd foram investidos 9 o ano passado ( e um projeto de alunos de uma escola de DC com apoio financeiro da UN Foundation), mas aparentemente um inverno frio não permitiu criar os pintainhos necessários a sustentabilidade do projeto. Mais detalhes adiante!

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