A greve do corpo

É… acho que às vezes acontece.

A rotina de treino estava tão puxada, tão intensa, que sábado o corpo simplesmente clamou por misericórdia.

Não consegui acordar cedo para o longão de 35K planejado. Ou melhor: acordei às sete, vesti a roupa de corrida, calcei os tênis e… fiquei desmaiado no sofá da sala.

Com as horas passando, me locomovi na velocidade de um cágado até a cozinha. 

Fiz o oposto de correr: comi.

Como tinha um evento na escola da minha filha mais velha, me prometi que correria à tarde.

O evento demorou. 

Fomos dele para um outro evento que uma amiga estava organizando.

O tempo passou.

De lá esticamos para um restaurante.

Almoçamos.

Combinei comigo mesmo: voltaria do restaurante para casa correndo, esticando pelo menos uns 25km. Estava confiante.

Na saída, acomodei as minhas duas filhas no carro, dei um beijo na minha mulher e… no instante seguinte, sem entender como, me vi sentado no banco de carona. Até agora não percebi direito o que sucedera: em algum instante quântico eu simplesmente desistira de correr e me catapultara para o carro.

Sem atitude sequer para dirigir, dormi o caminho inteiro na volta para casa.

Entrei porta adentro, já depois das 16:00.

Estava lerdo, lento, mal conseguindo balbuciar uma única frase. 

Mas estava agoniado, nervoso comigo mesmo. Precisava fazer algo: fechar a semana com apenas 36km rodados e me entregando à preguiça seria vexaminoso demais para o planejamento que fiz para mim mesmo.

Juntei todas as forças que me restavam.

Me empurrei pela porta.

Desci o elevador.

Entrei na academia do prédio: o melhor que conseguiria àquela altura.

Fui um herói para mim mesmo. 

Não fiz os 35 que havia planilhado, nem os 25 que havia imaginado. No final, o dia me permitiu apenas 15 parcos quilômetros que, em um esforço sobrehumano de compensação, corri em pace queniano.

Terminei suado, esbaforido, levemente dolorido mas… reenergizado e me sentindo minimamente íntegro.

Há momentos, concluí, que o corpo simplesmente decreta greve. Temos duas opções: ceder de vez, abrindo um precedente desnecessário, ou negociar uma volta à ativa. E é mesmo uma negociação: é possível que nem sempre consigamos sequer chegar perto dos planos originais – mas, quando a situação fica crítica, qualquer minúscula margem de vitória pode ser absolutamente redentora.

No final, fiz menos da metade do que havia planejado – mas descobri o dobro, pelo menos, da força de vontade que imaginava ter.

6 comentários em “A greve do corpo

Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: