Reescrevendo a história

Phil Masterton-Smith, apelidado de Unogwaja (ou lebre, na tradução direta) pelos zulus que o viam treinar nos morros dos arredores de Pietermaritzburg, foi uma das maiores lendas da Comrades.

Em 1930, perdeu o primeiro lugar para o lendário Wally Hayward por menos de 40 segundos.

Em 1931 (foto abaixo), venceu a prova na mais apertada disputa da história, cruzando a linha de chegada apenas 2 segundos à frente do concorrente, Noel Burree. Aos 19 anos, mantém até hoje o recorde de vencedor mais jovem de Comrades.

Em 32, ansioso por uma dobradinha, exagerou na velocidade e chegou em um decepcionante sexto lugar, prometendo a si mesmo que voltaria no ano seguinte para defender o título da up-run.

A essa altura, por conta da depressão financeira que seu país vivia, ele havia se mudado de Pietermaritzburg para morar com a família na Cidade do Cabo. Quando chegou a hora da Comrades, ele simplesmente não tinha dinheiro para cruzar os 1.650km de trem até a largada.

O que fez? Pegou uma bicicleta e pedalou até Pietermaritzburg em 10 dias, largando na Comrades no décimo primeiro.

Phil não venceu esse ano e, depois disso, nunca mais voltou a competir – mas seu feito o transformou em uma lenda. O desafio Unogwaja, aliás, existe por causa dele e refaz todo o seu caminho no pedal e a pé.

Mas sabe o mais interessante de tudo isso? Conhecer a vida do Unogwaja permite um conhecimento aprofundadíssimo de tudo o que fez a Comrades ser o que ela é.

Tenho trabalhado incessantemente nisso: a biografia dele é parte do livro que estou escrevendo para arrecadar fundos para o Unogwaja.

Nessa pesquisa, tenho falado regularmente com sua irmã, que hoje tem 94 anos de idade e uma memória impressionante; com diversos sobrinhos e sobrinhas, que tem inclusive localizado e me enviado documentos da época (como esta carta, abaixo, que foi a última que ele escreveu para a família antes de morrer na guerra); com diretores de suas escolas; e até mesmo com membros do seu antigo regimento.

Não tem sido uma pequisa fácil: refazer os passos de uma pessoa morta desde a década de 40 nunca é. Quer um exemplo? Duas escolas da Cidade do Cabo listam Phil como ex-aluno, esbanjando um tremendo orgulho por ter um vencedor da Comrades em seus quadros. Sabe o que descobri caçando registros e falando com os seus diretores? Ele nunca estudou em nenhuma das duas escolas. 

Há becos e mais becos sem saída, há muita ficção na biografia de um mito pelo simples motivo de que muitos querem tirar algum tipo de proveito das suas vitórias.

Aos poucos, no entanto, esse trabalho de pesquisa tem desvendado não apenas a história verdadeira do Unogwaja, como também mostrado como era a vida na África de 1930; como um cenário tão desolado e devastado por guerras conseguiu parir uma corrida originalmente tida como maluca homenageando justamente a camaradagem; como a força de vontade pode mudar destinos e vidas inteiras; como as nossas vidas – tanto a do Phil quanto a minha e quanto a sua, leitor – podem se transformar e ser as histórias contadas sobre nós.

Tem sido uma bênção fazer esse trabalho – uma das coisas mais entusiasmantes que já fiz, aliás. E, a partir de agora, ao menos de vez em quando, vou postando aqui no site um ou outro capítulo do livro. Há coisas, acredito, que precisam ser compartilhadas o quanto antes.

No mínimo, servirá para que todos tenhamos uma noção mais rica do peso histórico e do valor que a Comrades tem.


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