Capítulo 1: Gazala, Líbia, 5 de junho de 1942

Dizem que sempre vivemos a nossa vida duas vezes: uma em tempo real, enquanto tomamos as decisões do dia a dia e sofremos cada uma das suas consequências, e outra nos segundos que precedem a nossa morte, quando revivemos com intensa singularidade cada um dos nossos instantes sobre a terra.

Herbert Philip Masterton-Smith, soldado de infantaria do Primeiro Regimento Real de Carabineiros de Natal, da União da África do Sul, viu seu fim chegar na forma de um morteiro dirigido diretamente para a sua testa.

Poucos dias antes, na tarde de 26 de maio, duas divisões italianas iniciaram um pesadíssimo ataque frontal em Gazala, a oeste do porto de Tobruk, na Líbia – uma das posições mais importantes de todo o norte da África. Se foi um ataque inicial inesperado, o Eixo fez questão de se disfarçar de absoluta previsibilidade ao mover diversas outras unidades que estavam dispersas pela região no mesmo sentido.

A reação foi óbvia: os Aliados rapidamente se agruparam e se prepararam para a batalha com força total. Em um golpe de mestre, as forças do Eixo esperaram o sol se pôr e, sob o manto da escuridão, deram meia volta, contornaram todo o flanco inimigo e reapareceram, reforçadas pelas lendárias divisões Panzer do general nazista Erwin Rommel, para subitamente sufocar suas posições.

Não seria uma operação fácil para nenhum dos lados: se as forças do Eixo estavam em seu auge, contando ainda com o brilhantismo de um dos maiores estrategistas militares de todos os tempos, os Aliados estavam em posições extremamente fortalecidas, tanto por profundas trincheiras anti-tanque quanto por mais de 50km de bunkers de concreto, além de somar dezenas de milhares de soldados franceses, britânicos, australianos, indianos e sul-africanos prontos para a guerra.

Seria, sim, um inferno.

Nos últimos dias, como se não bastasse o clima escaldante do verão no Saara, a fome e a sede extremas, e o cheiro insuportável de corpos apodrecendo por todos os lados, Phil já havia testemunhado braços e pernas sendo decepados por explosões súbitas, atos de insanidade dos que só aparecem na guerra e uma abundância inimaginável de urros de desespero e de dor.

O fogo era tão constante que, em alguns momentos, ele chegava a se esquecer de como era o som do silêncio.

O medo, por sua vez, já se linearizava como status quo da vida dos milhares de soldados a tal ponto que eles sequer pestanejavam antes de se arriscar por camaradas feridos, por bandeiras caídas ou mesmo por maços de cigarro largados no chão.

Não que isso significasse que todos eram desumanamente destemidos, claro. Ao contrário: o desprezo pelo medo era fruto justamente da sua tão constante, absoluta e aterradora onipresença.

Phil, por exemplo, não se lembrava de outro momento na vida em que se apavorara mais do que quando fora destacado para o front de Gazala. Ele percorrera o que mais parecia a rota do inferno: ia, em silêncio, caminhando ombro a ombro com seus compatriotas igualmente assustados, até as trincheiras, enquanto via toda uma fila de combatentes esgotados, mutilados e ensanguentados, fazer o caminho da volta.

Duas coisas chamavam mais a sua atenção naqueles tão intermináveis minutos. Primeiro, o olhar de desespero perdido, de grito contido no silêncio, que se desenhava no rosto de todos os que voltavam; segundo, a constatação de que aqueles pobres miseráveis eram justamente os sortudos, os que haviam, ainda que por enquanto, sobrevivido às incansáveis artilharias inimigas.

“Se eu for abençoado pelo Nosso Senhor”, pensava Phil, “serei um desses farrapos ambulantes amanhã ou depois.”

A guerra sempre transforma em anãs as nossas mais colossais expectativas.

Por sorte – se é que esta palavra possa ser utilizada – os sons de tiros e morteiros rapidamente ocuparam todo o seu cérebro assustado.

A partir daí, tudo foi automático: seu absoluto pavor cedeu espaço a movimentos coordenadamente robóticos, incluindo o mergulho em uma trincheira e a busca por alvos na mira de sua carabina. Em um piscar de olhos, o jovem apavorado Phil se transformara em uma máquina de matar. Não que ele tivesse alternativa, claro: na guerra, matar é a única estratégia de sobrevivência.

Assim, da sua fétida trincheira, já nos primeiros minutos, ele ceifou a vida de um, dois, três nazistas.

Olhou para o lado e viu companheiros dispararem um morteiro bem no seio de um agrupamento inimigo. Não conseguiu contar os cadáveres, mas teve a certeza de ver dois braços soltos voando para fora. Comemorou sem perder a concentração. Em silêncio.

Atirou na direção de soldados que pareciam correr soltos, desesperados sob o onipresente manto de poeira quente do deserto.

Acertou dois, errou três. Balançou a cabeça desaprovando-se a si mesmo.

Sentiu o zumzum de balas soprando rápidas pelo seu ouvido: escapara por pouco.

De repente, uma bomba explodiu na trincheira vizinha à sua: três companheiros mortos.

Fossem tempos de paz, Phil se permitiria derramar ao menos algumas lágrimas discretas pelos seus camaradas. Eram tempos de guerra: tudo o que ele conseguia pensar era que, em poucas horas, o odor da putrefação se somaria ao cheiro de pólvora, vômito e urina das trincheiras para atormentá-lo mais que qualquer tanque de guerra nazista.

Horas se passaram assim, entre tiros, bombas, mortes e mutilações.

Pescoços de camaradas espirravam sangue. Balas atingiam e erravam alvos fáceis. O ar massacrava as narinas. O suor seco do caldeirão desértico atrapalhava as miras.

Músculos desafiavam as dores. Dedos repetiam movimentos minúsculos sobre os gatilhos, explodindo efeitos inversamente proporcionais nos peitos dos inimigos.

Almas deixavam corpos em forma de gritos.

Gritos impulsionavam balas em forma de um tipo estranho, linear, de ira selvagem.

Era a guerra.

Em seu pior.

Depois do que pareceu a eternidade do inferno, uma mão ordenou que Phil voltasse ao acampamento: estava sendo rendido por outro agrupamento mais fresco e descansado. Teve sorte: ao menos dessa vez, faria o caminho de volta, o caminho dos sobreviventes esfarrapados.

Ao longo da guerra, Phil fez esse caminho outras três vezes.

Em todas elas, ele vivia uma espécie de transformação a cada passo dado na direção oposta às trincheiras: na medida em que os estrondos ficavam mais distantes, ele se metamorfoseava de volta de máquina em gente, de ser inanimado de batalha em uma pessoa comum com saudades da vida, das suas irmãs mais próximas, Biddy e Jill, das distantes praias de Durban, na costa do Índico. Da sua jornada pela África até a Comrades, em 1933. Do silêncio, seu tão amado silêncio.

Da mesma forma, em todos os caminhos de volta às trincheiras, ele se percebia desumanizando, transformando-se em uma mera e prática extensão de sua carabina.

Vida de soldado era assim: um transformar-se instintivo, constante, entre lutar para sobreviver ao presente e sonhar com as lembranças do passado. Nunca havia tempo ou nervo suficiente para imaginar o futuro.

Até aquele momento, aliás, quando viu o morteiro inimigo aproximar-se lentamente de sua testa, acompanhado apenas de um impávido assobio, Phil nunca pensara em nada que não fosse atirar e desviar de fogos enquanto estava nas trincheiras.

“A morte vem precedida por uma visão panorâmica da vida”, pensou Phil em um microscópico pedaço de instante, enquanto refletia sobre cada um dos seus trinta anos.

Ele sabia que chegara a sua hora.

De repente, quando fechou os olhos esperando o fim, ele se viu catapultado até o abençoado silêncio da sua primeira Comrades, quando tinha apenas 18 anos e competia ombro a ombro pela vitória contra um atleta que acabaria se transformando em uma das maiores lendas esportivas sul africanas: Wally Hayward.

De repente, transportara-se para uma outra era.

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