Capítulo 6: Pietermaritzburg, às 14:35:09 de 24 de maio de 1932

Nem toda a torcida do mundo havia ajudado.

Naquele exato instante, o exausto e debilitado Unogwaja cruzava a linha de chegada na sua cidade natal, Pietermaritzburg, uma hora e quinze minutos depois do tempo que ele fizera no ano anterior, quando vencera a prova.

Desta vez, não havia sido derrotado em nenhuma perseguição implacável. Por um golpe errado de raciocínio, por um ingênuo lampejo de agonia, perdera miseravelmente para si mesmo.

“Não era para ter sido assim”, pensou Masterton-Smith no instante em que cruzara a linha de chegada sob os olhares decepcionados da torcida em Pietermaritzburg.

Seu começo havia sido idêntico ao dos dois anos anteriores: ele começara lento, coordenando passadas rítmicas e ignorando tudo e todos à sua frente. Como nos anos anteriores, não eram poucos: em Pinetown, por exemplo, dos sessenta e cinco corredores que largaram, quinze estavam em sua frente – sendo que o primeiro, com uma hora e trinta e um minutos de prova, acumulava quatorze minutos na dianteira.

Até aí, nada de diferente de 1931 ou mesmo de 1930.

Masterton-Smith seguiu correndo a sua prova, economizando energias para a segunda metade. Quando chegou nela, em Drummond, estava já na quinta colocação – mas, com três horas, quarenta e nove minutos e quinze segundos, sua distância para o líder, J. Savage, havia aumentado para quinze minutos.

Algo parecia errado. Teria ele exagerado no conservadorismo? Seria a hora de iniciar a perseguição?

Masterton-Smith ficou se digladiando com sua própria dúvida, horrorizado pela possibilidade de perder a chance de fazer história com duas vitórias consecutivas.

Fazia contas e mais contas. Calculava ritmos necessários. Hipotetizava sobre o cansaço dos outros. Agoniava-se com a incapacidade de chegar em alguma conclusão qualquer.

Sentia a sua tensão subir a cada segundo: queria vencer!

Imaginava a mesma situação da prova de 1930, quando perdera por tão pouco. Depois, voava até 1931, quando vencera por uma margem tão apertada por ter, em sua mente, exagerado alguns milímetros desnecessários na sua zona de conforto.

Aos poucos, deixou a agonia dominar sua prova e fez o que jamais deveria ter feito: acelerou como se estivesse na reta de chegada.

O resultado foi óbvio: em Umlaas Road, assumiu a liderança com alguma folga.

Por um punhado de segundos, Masterton-Smith congratulou-se pela colocação que acreditava ser a certa para si. Instantes depois, no entanto, sentiu que algo estava errado.

Já na descida do mesmo morro em que assumiu a liderança, o Unogwaja começou a sentir fortes câimbras nas pernas. Tentou ignorá-las. Não conseguiu.

Parou para uma massagem, sentindo-se Wally Hayward na edição de 1930. “No final, ele venceu”, repetia para si mesmo, tentando cavar alguma autoconfiança.

Continuou, administrando a liderança por mais alguns minutos.

Mais câimbras.

Diminuiu o ritmo e aumentou a irritação.

Gritou o seu sussurro com toda a sua força… e sentiu que seu corpo simplesmente não conseguiria mais continuar como originalmente planejara.

Parou de correr e passou a caminhar.

Incrédulo, viu Bill Savage passar como um foguete por ele no famoso morro de Polly Shortts.

Sem reação, sentiu também Lionel Knight deslizar pela sua esquerda.

Depois foi a vez de Cochrane.

E Ballington.

E W. W. Savage, irmão do primeiro colocado.

Estava devastado, lutando com todas as suas forças para ao menos chegar minimamente inteiro.

Finalmente, com oito horas, trinta e cinco minutos e nove segundos – cinquenta e três minutos depois do vencedor –, um Phil Masterton-Smith combalido, decepcionado consigo mesmo e nitidamente dolorido, cruzava a linha de chegada.

Nos últimos dez quilômetros, ele testemunhara os gritos de “Unogwaja!”, da sua fanática torcida em Pietermaritzburg, lentamente se calando.

Nos últimos cinco, sentiu-se destroçado por ter deixado passar a oportunidade de vencer por duas edições consecutivas.

Nos últimos dois, pensava apenas em concluir e sair dali o quanto antes.

Estava envergonhado.

No cabisbaixo caminho de volta para casa, prometeu-se a si mesmo que correria novamente no ano seguinte para clamar o seu lugar de direito no pódium – custasse o que custasse.

Às vésperas de mudanças drásticas no seu país e na sua vida, no entanto, Phil Masterton-Smith não sabia que aquele ano de 1932 seria, para sua absoluta infelicidade, o último em que seu nome figuraria na lista de favoritos.

O que ele também não sabia era que a maior aventura da sua vida – a que efetivamente imortalizaria seu nome – estava prestes a começar.

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