Capítulo 8: Cidade do Cabo, 7 da manhã do dia 14 de maio de 1933

Aos poucos, o sol começava a descongelar aquele domingo com raios que pintavam os céus da belíssima Cidade do Cabo de vermelho, amarelo, laranja, azul. Phil estava só na porta da casa da sua família, calado como sempre, olhando fixamente para a sua bicicleta, repensando o passado e represando uma energia colossal, feita de empolgação e ansiedade, enquanto imaginava o futuro.

Desde que se mudara para a Cidade do Cabo, no apagar das luzes de 1932, ele martelava o próprio cérebro com a mesma pergunta: como faria para correr a Comrades e defender o seu título no percurso de descida?

Há poucos meses, tudo mudara em sua vida: de lenda local, bem empregado e popular com tudo e com todos, ele havia subitamente se transformado em um desempregado falido e sem teto. No começo, incrédulo, contou com pequenos favores de amigos para sobreviver; depois, partiu para a venda dos poucos bens que possuía; finalmente, se viu dependendo da solidariedade da própria comunidade. Aos poucos, na medida em que sentia a fome crescer, sua esperança se metamorfoseava em um angustiado desespero: não sabia mais o que fazer para se sustentar.

Sem alternativa e envergonhado, escreveu para Harry, seu pai, pedindo apoio financeiro.

Semanas se passaram sem resposta.

Estava só, isolado, deprimido e, pela primeira vez na vida, sem saber o que fazer.

Ia aos correios todos os dias.

Fazia contas de quanto tempo uma carta levava para chegar de Pietermaritzburg à Cidade do Cabo e vice-versa.

Perdia-se no calendário.

Agoniava-se mais.

Finalmente, semanas depois, recebeu a resposta do seu pai: um envelope contendo dinheiro suficiente para que comprasse uma passagem de trem e se mudasse para a casa da família, na Cidade do Cabo. Havia também um bilhete: “Infelizmente, não temos meios para te ajudar aí em Natal, mas você é bem vindo aqui. No Cabo, certamente poderá conseguir trabalho mais facilmente – e poderá também nos ajudar bastante com as contas e com as crianças. Por favor venha o quanto antes: estamos te esperando. Harry.”

Sem alternativa, ele foi.

Deixou para trás as lembranças de uma vida em que ele tinha tudo o que sonhava: a popularidade, os amigos, os esportes, a Comrades.

Chegaria alguns dias depois na Cidade do Cabo como um anônimo qualquer, mais um dos tantos flagelados econômicos que superlotavam os maiores centros comerciais do país em busca de sustento.

Estava devastado.

Seu ânimo não melhorou quando entrou na casa da família e se deparou com um cenário de tanta desolação: tristeza generalizada, fome e uma poderosa desesperança que parecia emanar dos olhares de todos. Não descansou nem por um dia: horas depois de desfazer as malas, montou em sua bicicleta e voou até o centro para procurar trabalho.

Levou semanas para conseguir algo mas, eventualmente, acabou encontrando uma fonte minimamente estável de pequenos trabalhos e tarefas que pagavam o suficiente não para seu sustento, mas para sua sobrevivência.

Sentiu aquela fome branda, mas permanente, se transformar em estado de normalidade.

Testemunhou discussões severas, daquelas geradas por pura falta de esperança, entre seu pai e sua madrasta.

Fez de tudo para aliviar o sofrimento das duas pessoas que mais amava na vida, as irmãs Biddy e Jill, ainda crianças demais para encarar o mundo que cismava em ser tão aterrorizante.

Manteve-se são pelo suor: pedalava por toda a cidade, corria as trilhas da majestosa Table Mountain para espairecer e limpar a mente, ignorava qualquer necessidade de combustível para fazer os músculos operarem mais à vontade.

De certa forma, sua vida inteira nesses primeiros meses na Cidade do Cabo poderia mesmo ser resumida a esses pontos: trabalhar arduamente em qualquer coisa que se apresentasse como oportunidade, sentir fome, compartilhar a angústia da família, aliviar o sofrimento das irmãs, gerar endorfinas para não enlouquecer.

Era coisa demais para um jovem de apenas vinte e um anos… mas não havia outra alternativa. Àquela altura, era como se o Acaso, a pura sorte, determinasse cada dia da vida de Phil e de todos a seu redor.

Ainda assim, por mais que mente e corpo estivessem tão constantemente ocupados, não havia um único dia em que ele não pensasse em alguma forma de estar em Pietermaritzburg para a Comrades. Para ele, era muito mais que uma prova esportiva: correr a edição de 1933 seria a chance de Phil Masterton-Smith defender o seu título no percurso de descida, conquistado em 31; de sentir novamente o gosto da popularidade; de revisitar e, quem sabe, recuperar um tempo em que ele fora tão plenamente feliz.

A Comrades não era apenas o seu sonho: era a sua quase alucinógena obsessão, um meio de transportar seu passado glorioso para o futuro incerto.

Assim, entre uma tarefa e outra, logo antes de dormir ou depois de acordar, ele fazia planos e contas incansáveis para viabilizar a sua presença na linha de largada. Sempre em silêncio, claro: apenas o olhar distante eventualmente dava à sua família pistas de que algo fora do comum se passava em sua cabeça.

Finalmente, no dia primeiro de maio – vinte e quatro dias antes da prova – ele se deparou com a inegável impossibilidade financeira de viajar: por mais que tivesse trabalhado duro por tantos meses, não fora capaz de juntar dinheiro o suficiente sequer para a passagem de trem.

Tão logo ordenou essa conclusão em palavras dentro do seu cérebro, desesperou-se.

Tomou coragem e pediu dinheiro emprestado ao pai. Recebeu um grito como resposta imediata, seguido de toda uma série de insultos sobre o egoísmo que estaria cegando-o para a tão desesperadora realidade à sua volta. Não teve forças para discutir: no fundo, sabia que não faria sentido tomar dinheiro da sua família para realizar um sonho pessoal.

Por outro lado, sabia também que não suportaria não ir.

O que faria, então?

Passou uma semana inteira cogitando alternativas, tentando outros empréstimos com os novos amigos que fizera no Cabo, medindo cada mínima possibilidade de vencer os 1.700km de distância até a linha de largada.

Finalmente, enquanto pedalava até o trabalho em uma quarta-feira, dia 10 de maio de 1933, teve um estalo: e se ele pedalasse até a Comrades?

Não conseguiu se conter: foi até a estação de trem e congelou-se em frente ao mapa da África do Sul. Havia três rotas possíveis: ele poderia seguir pelo litoral, fazendo um trajeto mais longo, porém com mais cidades grandes onde poderia conseguir abrigo e comida mais facilmente; poderia fazer uma espécie de linha reta, com menos cidades e mais montanhas (e, portanto, mais perigos); ou poderia ir pelo interior, desenhando uma espécie de linha negativada da rota litorânea e trocando o isolamento por um percurso mais nem tão montanhoso e nem tão longo. Passou os próximos dois dias pensando em qual seria a melhor rota, calculando cada dificuldade e facilidade, organizando mentalmente tudo o que precisaria e listando pros e contras de cada uma das possíveis decisões. Até que caiu em si.

Se quisesse mesmo chegar a tempo em Pietermaritzburg, não poderia decidir, por si só, qual rota tomaria: precisaria improvisar e contar com uma ajuda do próprio Acaso – o mesmo Acaso que havia massacrado tanto a sua vida naqueles últimos tempo. A única decisão que teria que tomar era a lógica: seguir rumo ao leste.

Como? Na pior das hipóteses, de bicicleta. Na melhor, arrumando caronas pelo caminho. O percurso, obviamente, precisaria ser definido não por ele, mas pelos motoristas que encontrasse e que estivessem dispostos a ajudá-lo.

E toda essa saga agonizante de torturas mentais o haviam feito chegar até aquele exato instante: estava hirto, observado sua velha bicicleta, levando apenas uma sacola com pertences mínimos, dinheiro o suficiente para comprar comida por cinco ou seis dias e muita, muita força de vontade.

Depois que o dia clareou o suficiente, Phil Masterton-Smith sentou no seu selim e começou a pedalar rumo ao leste.

Deixava para trás meses de agonia e um bilhete sucinto na mesa de jantar: “Volto depois da Comrades.”

Pela frente, tinha apenas a certeza de que enfrentaria a maior aventura de sua vida.

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