A Vida é movimento

No dia 1, semana que vem, viajo para a Itália. Passarei 10 dias lá, com mulher e filhas, na casa da minha mãe – e aproveitarei para conhecer a cidade de Ferrera, onde o soldado que deu origem à lenda das meias vermelhas ficou preso. Diria mais: foi lá que a lenda em si nasceu e, se tudo der certo, terei como guia ninguém menos que Giuseppe Zucca, filho de Giovanna Freddi, a italiana que achou e salvou os três soldados fugitivos das garras dos nazistas. Fantástico, não?

Mais fantástico ainda é viajar nos acasos da vida.

Em uma terça qualquer de 2013, empurrado pelo mais puro acaso, fui correr no pequeno Parque do Povo, aqui em São Paulo, e dei de cara com um grupo de corredores treinando para a Comrades. A admiração, a heroificação deles por mim foi imediata. Sem nenhum preparo, sem a mínima condição, decidi que iria no ano seguinte. Queria ir. Precisava ir.

Fui. Lá, quis o acaso que o sistema de reservas do meu hotel em Pietermaritzburg tivesse surtado, impedindo meu checkin e me deixando com um tempo excessivo nas mãos – tempo que, originalmente, havia planejado passar descansando na cama para me preparar para a largada na manhã seguinte. Decidi passear.

No passeio, de cara com os Unogwajas que, por acaso, estavam terminando a sua jornada de bike naquele exato instante. Me encantei com esses novos heróis que eu me acostumara a ver apenas pelo Youtube.

Tempos se passaram e aquela cena nunca saiu da minha mente.

Ano passado, vesgo de saudades da Comrades enquanto acompanhava o time de 2017 na sua jornada do Cabo a Durban, decidi me inscrever na seleção. Queria participar daquilo. Precisava participar.

Me inscrevi.

Fui selecionado.

Me aproximei do Nato, que tenho como um dos meus heróis pessoais máximos.

Conheci o John, fundador do Unogwaja.

Comecei a escrever o livro com toda a fantástica história desse movimento.

Conheci Biddy, irmã do Phil Masterton-Smith. Conheci WP van Zyl, um desses aventureiros natos que às vezes achamos que nem existem. Conheci Roy Feinson, filho do soldado das meias vermelhas. Conheci Giuseppe, filho da sua salvadora.

Conheci pessoas tão incríveis que, por vezes, achei que estava alucinando.

Me envolvi na história. Me inspirei com ela. Entrei nela.

Transformei minha vida inteira em uma espécie de caldo feito de adrenalina com endorfina.

E agora estou prestes a ser apresentado, pelo filho de uma heroína da resistência italiana, aos locais secretos da Segunda Guerra Mundial onde planos cinematográficos foram meticulosamente traçados para ajudar a derrubar o nazismo.

Isso, claro, apenas meses antes de eu iniciar esse insano pedal de 1.700km, cruzando a África do Sul, ou de lançar o livro que servirá de primeiro documento literário de toda essa história.

E tudo porque, naquela longínqua terça-feira de 2013, decidi, por acaso, correr no Parque do Povo (e não no Ibirapuera, no Villa-Lobos ou em qualquer outro dos tantos parques que salpicam São Paulo).

O Acaso é realmente um troço maravilhoso, mágico: basta estar aberto, basta estar disposto, e ele muda a sua vida de maneiras inacreditáveis.

E suas consequências sempre inevitáveis e inexoráveis provam, repetidas vezes, que a vida em si só vale a pena quando a mantemos em movimento constante, quando nos expomos cada vez mais às desconhecidas sortes que, em última instância, são as grandes responsáveis pela própria Existência.

Viver é fantástico.

3 comentários em “A Vida é movimento

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