Reencontrando a luz

Há momentos em que precisamos sacudir a poeira e ordenar o corpo a se endireitar, a seguir com a caminhada para a qual ele se propôs.

Acontece em todas as ultras: lá pelo quilômetro 60 ou 70, quando o calor bate e o suor teima em sair seco, tudo parece desfuncionar. E tudo anda ao contrário: a mente questiona os movimentos, o tempo engorda e se arrasta, a cabeça vira um pico de dor, a sede transforma cada articulação em sertão, em deserto.

Há – como sempre – duas opções: ceder ou seguir.

Quando se segue, o foco precisa ser o de curto prazo: o próximo posto de apoio, o cume seguinte, o marco logo ali na virada da esquina. Um após o outro enquanto as pernas se ritmizam, se sequenciam continuamente, sem parar. Até que, de repente, quando menos se percebe, o corpo se auto-conserta em silêncio, em segredo.

E a sede some, a motivação volta, o cansaço assume ares de passado. E se consegue seguir adiante, reenergizado, pensando mais no médio ou longo prazo, até a linha de chegada.

Esse treinamento para o Unogwaja tem sido um pouco assim.

O acúmulo de semanas com 14, 15, 16 horas de treino, de repente, me empurraram para um abismo. Tudo escureceu: sonos vinham durante o dia, a qualquer hora; gripes se aproximaram da realidade; vontades de sair para correr ou pedalar evaporaram. Na semana passada, nem ânimo para treinar em uma das manhãs, seguindo a planilha, eu tive: preferi ceder ao sono, coisa que raras vezes fiz.

Foram dias arrastados, arrestados, desgraçados. Até que decidi focar nas metas menores – como se estivesse em uma ultra.

Na sexta passada, tinha 32K para fazer correndo. Chamei amigos para irem comigo: a companhia certamente me faria bem. E fez.

Rodei a manhã ensolarada do feriado cortando de quina a quina o Ibirapuera ao lado de novos ares, de conversas, de respiros. Terminei com aquela já esquecida sensação de missão cumprida.

No sábado, teria 150K para rodar de bike no percurso de 16K do Riacho Grande. Precisava metificar isso. 150 viraram 161 – ou 100 milhas – já nas primeiras horas da manhã. 100 milhas: meta redonda, bonita, clássica.

Dez voltas de 16K, portanto. Precisava de uma estratégia de curto prazo para não ceder ao tédio. Montei-a.

Primeiro, comprometendo-me a rodar 5 voltas – metade – antes de fazer uma parada para comer.

1, 2, 3, 4, 5.

Parei. Comi duas barrinhas de castanhas. Bebi goles gigantes de água.

Mais três voltas até a próxima parada.

Foram mais difíceis, rodadas com cansaço… mas seriam só três. Número pequeno, administrável, tangível. 1. 2. Mais um pouco e, de repente… 3.

Nova pausa. Foram-se as duas últimas barrinhas e mais um longo gole de água.

Agora seriam só mais duas voltas.

Segui.

A primeira foi já avisando que restaria só mais outra. No começo dela, 150K batidos: para todos os efeitos, o treinamento planilhado já estava finalizado. Segui.

Passei o carro estacionado.

Empurrei mais, e mais, e mais.

Metros se encurtaram desenhando sorrisos suados, realizados, aliviados.

Última subida.

Última volta.

Último suspiro.

Desacelerei.

Desclipei do pedal.

Sorri.

Desmontei quase querendo me curvar em agradecimento à torcida invisível de mim mesmo para mim mesmo.

100 milhas. Depois de 32K.

Ambos debaixo de um sol inclemente.

Ambos seguindo a fase mais escura desde que comecei.

Metas operam milagres quando cumpridas.

Feliz, renovado, reinteirado, guardei a bike no carro, liguei o motor e voltei para São Paulo, para casa, para o cotidiano.

Voltei só, em silêncio – mas acompanhado do mais ensurdecedor dos incentivos secretos, invisíveis, endorfinados.

E torcendo para que ele me leve direto até o dia da minha largada, em pouco menos de dois meses.

(Porque essas fases escuras de cansaço e desmotivação, esses períodos infinitamente longos que precisam ser superados a duras penas, são realmente difíceis de suportar. Que eles não parem no meu caminho novamente!)

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