A resposta da Bertioga-Maresias

Larguei para os 75km da Bertioga-Maresias em uma espécie de angústia resignada. 

Estava com o corpo mastigado, desmotivado e, em essência, absolutamente desnorteado.

Havia, nos últimos meses, concebido um plano infalível para cumprir toda uma bateria de metas sobre-humanas em tempo recorde. No curtíssimo período de um ano, recém saído do Unogwaja, faria não apenas a BR135, uma das mais longas e difíceis ultras do Brasil, como também um Ironman completo – esporte para o qual eu ainda precisaria dar os primeiros passos de preparo. 

O plano, claro, era todo pautado pela lógica dos números: cronograma racionalmente distribuído, estresse físico dosado treino a treino, volume de atividades crescente e toda uma fila de provas para testar a evolução. 

Perfeito, não? 

O que, então, deu tão errado? A Bertioga-Maresias, afinal, era a primeira corrida relevante que eu estava fazendo desde a concepção desse plano – e era também a prova de que ele havia falhado miseravelmente. 

Fiquei remoendo essas questões todas lá nas areias do litoral norte paulista enquanto corria. Havia “tempo mental” para isso: os primeiros 50km são feitos em um único praião reto, infinito, com mudanças apenas acessórias de paisagem (como prédios brotando na orla da Riviera ou mato crescendo em Itaguá). 

Esses primeiros e entediantes dois terços da Bertioga-Maresias são, decididamente, uma prova muito mais mental do que física. Péssimo para quem já largou suspirando desmotivação; perfeito para quem precisa repensar a vida. 

E, assim, fui repensando tudo. 

“Preciso escolher um dos dois caminhos: ou ultra ou iron. A simultaneidade é impossível”, dizia para mim mesmo com ares de gênio retardado. 

O cansaço da ultra me empurrava para o iron. 

“Cancelarei metade do cronograma: cortarei BR, MIUT e treinões longos e me concentrarei mais na bike e na natação.” 

O sol que começava a arder um céu maravilhosamente azul me fazia mudar de ideia. 

“Não dá para dizer que isso aqui, esse negócio de cruzar meio mundo a pé, não seja de uma beleza incomparável. Cortarei a outra metade do cronograma, matarei o triathlon”, me dizia.

Fiquei pinguepongueando as ideias e decisões, preso na bifurcação, por quilômetros.

Em um determinado ponto, já nem me lembrava mais em que parte da prova estava. Apenas discutia comigo mesmo.

Encontrei amigos, bati papos que iam do incrível ao esdrúxulo, grunhi, sorri, me animei. 

Olhei para o relógio: meu tempo estava compatível com meu estado geral: péssimo. Mas continuei, irrelevantizando o cronômetro. 

De repente, o praião chegou aos pés da primeira serra, em Juquehy. Nesse ponto, muitos dizem, começa a parte difícil da Bertioga-Maresias, com uma sucessão de serras malignas interligados por trechos de areia fofa. Para mim, é o oposto: é nos morros que se varia o pace, é nos topos que se baba com as vistas, é na areia fofa que se muda o tipo de respiração. É nas variações que se diverte – e é, afinal, a diversão que mais conta em uma ultra. 

E foi mais ou menos por lá, no auge do cansaço físico, que o caminho do triathlon começou a se improbabilizar: correr entre a mata atlântica e a praia, suar lentamente sobre os próprios pés enquanto se cruzava paisagens organicamente, era um troço bom demais para ficar em segundo plano. 

Não que não tenha reclamado, claro. Fosse nas areias fofas de Juquehy ou na interminável serra de Maresias, o tempo realmente parecia parado, hirto, preso. Mas a questão era outra: a prisão tinha mar de um lado, floresta de outro e um céu maravilhosamente azul acima. Quer coisa melhor? 

Foi com esse pensamento que cruzei a chegada. 

Foi na chegada que tive a minha resposta.

Ainda levei alguns dias para colocar essa sabedoria das trilhas em palavras – mas ela veio com uma lógica desenhada, essencialmente, nessas linhas: 

  1. Se é para focar em um perfil de objetivo, que seja o de ultra, uma vez que eu já estou inscrito e aceito na BR135. O Iron fica para o futuro. 
  2. Limpeza geral na lista de provas, incluindo a eliminação dos planos do  EVTri (que seria agora, neste final de semana), do Long Distance Pirassununga (no final de novembro) e do Madeira Island Utratrail, em abril do ano que vem. Era tudo coisa demais. 
  3. No radar, apenas três provas sobreviveram: a Maratona de Curitiba em novembro (que será meu qualify para a Comrades 2019); a BR135 em janeiro; a Comrades 2019 em junho. Só.
  4. Para os treinos, nada de socar modalidades e eliminar por completo qualquer dia de descanso. Depois de um bom papo com meu treinador, as semanas basicamente incluirão 5 dias de corrida, 1 de pedal ou natação e 1 de descanso. Ou seja: 6 treinos por semana (ao invés dos massacrante 9, incluindo longões de corrida intermináveis, que eu estava fazendo).
  5. E o Iron? Depois do Carnaval começo, aos poucos, a inseri-lo. E aí dou a ele a prioridade que ele efetivamente requer, sem dividir uma meta bruta com outra para evitar uma nova quebra.

Lendo agora, essas respostas que a Bertiog-Maresias me deu parecem mesmo ululantemente óbvias. E são, provavelmente. O problema é que, quando estamos afogados na ansiedade pela endorfina, acabamos cegos justamente para o óbvio. 

E agora? Agora, pelo menos pelos próximos dias, é o momento de resetar o corpo e a mente, de descansar e de deixar todo esse acúmulo de ácido lático mental desaparecer pelo sistema. 

E recomeçar com um pouco mais de sustentabilidade. 

 


2 comentários em “A resposta da Bertioga-Maresias

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