Qualify na Maratona de Curitiba

Não vou dizer que larguei com sangue nos olhos e descanso nas pernas. Ao final de um ano tão intenso e apenas um mês depois de devastadores 75km na Bertioga-Maresias, o cansaço acumulado já circula tão livre pelas minhas veias que aprendi até a me acostumar com suas pequenas dores e pontadas fora de hora. 

Ainda assim, tomei fôlego e decidi tirar da frente o qualify para a Comrades de 2019, algo que, eventualmente, precisaria mesmo fazer. A prova escolhida? A Maratona de Curitiba que, mesmo com sua altimetria malvada, já me deu um tempo bom no passado. 

Assim sendo, às 6:55 do domingo, estava eu lá, na linha de largada, com a clara meta de fazer um sub-4 e conseguir uma baia D para a Comrades. Qualquer agressividade maior que essa, dado o meu estado, sabia ser irreal. 

E larguei. 

No começo, comendo os altos e baixos entre conversas com amigos e narrações de um audiolivro que ouvia durante o percurso. Olhava o relógio a cada 3, 4 minutos: estava firme em um pace de 5’25″/km, melhor que a meta e garantindo alguma margem de gordura. 

Apalpava meu corpo mentalmente a cada punhado de instantes: estava inteiro, intacto. 

Olhava para a frente: Curitiba parecia desfilar por mim com seus bairros lisos e suas árvores acostumadas ao frio, seus asfaltos íntegros e seu cotidiano ordenado. 

Parei de prestar atenção ao audiolivro. Desliguei o fone. Comecei a ouvir a cidade, os passos dos demais corredores, os gritos de encorajamento das pessoas que enfrentavam a garoa para testemunhar esse casamento tão perfeito de suor com endorfina se materializando em tanta gente. 

E ai duas coisas aconteceram. 

Primeiro, lá pelo quilômetro 30, meu corpo quebrou. Cansaço acumulado, eventualmente, sempre cobra um preço. 

Com uma instantaneidade assombrosa, meu pace de 5’25” foi se transformando em 5’35”, 5’40”, 6′, 6’10”. Não cheguei a caminhar, mas fiz as últimas subidas em uma velocidade tão intensa quanto a de um cágado com sono. 

Vi o segundo exato em que minha meta de sub-4 se evaporou da realidade. Vi e senti uma segunda coisa esquisita acontecer: entrei na prova. 

Quando entendi que meu tempo seria outro, simplesmente desisti do relógio e comecei a correr respirando a realidade. Apalpando o corpo novamente, senti – claro – o cansaço… mas senti também um tipo de felicidade por estar correndo ali, em Curitiba, maior do que em muitas provas cujas metas pessoais eu havia atingido com louvor. 

Fui assim até o final, curtindo a endorfina tardia enquanto sorvia o sempre empolgante clima de uma maratona, sorrindo ininterruptamente quando deveria estar xingando o ácido lático que cismava em amarrar toda a minha musculatura. 

No final, cruzei a linha de chegada em 4h09m58s – 9 minutos e 59 segundos acima da minha meta original. 

Tempo ruim? Bom… não consegui o qualify na baia que eu pretendia para a Comrades, a D. Mas consegui um qualify, o suficiente para gerar um sorriso aliviado.

 Mas mais importante que qualquer tempo foi essa sensação de oxigênio pós-prova, de “aftertaste” gostoso, de ter entrado na maratona e de ter aproveitado-a a despeito de qualquer plano mal ajambrado.

Que mais provas terminem assim – independente do tempo que elas levarem!


2 comentários em “Qualify na Maratona de Curitiba

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  1. Grande Ricardo Almeida. Prazer enorme conversar contigo pouco antes da prova. Excelente prova. Grande maratona com suas dificuldades e belezas. Excelente companhias e grandes emoções.

    Até a próxima largada.

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