Entre lendas

Lendas têm sempre a importância somada de suas histórias, seus feitos, seus mitos.

Tenho algumas lendas no meu panteão particular, esculturas imaginárias a quem visito mentalmente sempre que preciso de alguma referência ou inspiração para qualquer coisa.

Lá há antepassados, há aqueles espíritos livres e aguerridos que superam de tudo em suas vidas, há escritores que desenharam as filosofias mais incríveis do mundo, há atletas que alcançaram marcas possíveis apenas porque seus corações superaram e decidiram comandar cada um dos seus músculos.

Não são tantos, esses heróis: apesar de imaginário, meu panteão particular parece ter espaço limitado.

Um deles é esse sujeito no meio da foto abaixo, Miguel Netto.

Migs, como é mais conhecido, fez 3 Unogwajas, sabe-se lá quantos Ironman, dominou o épico Cape Epic e pavimentou de endorfina tantos caminhos que fica difícil sequer calculá-los.

Fazer 3 Unogwajas não é pouca coisa. Fiz um e, quando o desafio terminou na chegada da Comrades, em Durban, meu corpo estava prestes a entrar em um colapso total. Mas três? E ainda regados a toda uma miríade de contratempos que incluíram coisas como se perder, de bike, na zona mais perigosa de Cape Town, em época de guerra de gangues e durante a madrugada, até ajudar com músculos e palavras outros companheiros que já não conseguiam mais subir as tantas montanhas ou voar bem nos sprints pelo caminho? Difícil sequer descrever o heroísmo que se esconde em coisas assim.

Durante o meu Unogwaja, Migs funcionou como uma espécie de membro espiritual: conversava com o time via Whats nas chegadas, dava algumas dicas baseadas em nossas performances nos dias anteriores, enviava áudios poderosos que ouvíamos, juntos, minutos antes de partirmos rumo à meta. Era o ausente mais presente de todos naquela jornada tão épica.

E, ontem, ele aportou aqui em São Paulo, parte do caminho de volta dele do Ironman Mar del Plata, na Argentina – onde chegou no top 10 – até sua casa, em Cape Town.

Fui lá na casa do Nato, outro dos meus heróis pessoais, recebê-lo e à sua mulher, Ros, e jogar conversa fora.

Jogar conversa fora… difícil fazer isso quando cada palavra parece desenhar histórias tão empolgantes sobre passados, presentes e futuros.

Saí como um daqueles fãs tontos e tortos, feliz pelas duas ou três horas passadas e carregado de inspiração para desenhar as tantas outras histórias que pretendo para mim.

Já no caminho de casa, minha mulher virou para mim e disse: “Muito incrível fazer parte desse grupo que você está hoje. Você deve se orgulhar muito disso”.

Nem tinha me dado conta que, de fato, eu estava ali como membro dessa comunidade coesa de Unogwajas que, hoje, se espalha pelo mundo. A felicidade se converteu em orgulho, em uma espécie de auto-entusiasmo.

Noites fantásticas, essas que acabam assim.

Que ano fantástico, esse 2018!

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