Análise histórica de picos de treinos via Training Peaks

Já faz algum tempo que uso o Training Peaks como principal ferramenta de treino. Além de permitir um controle melhor de planilhas que kms cuspidos em planilhas Excel ou mensagens de Whatsapp, a ferramenta tem indicadores que são simplesmente sensacionais (como, por exemplo, o CTL, que mede o grau de preparo do atleta) – o que acaba estabelecendo uma base comparativa fantástica para se interpretar os treinos.

Considerando um histórico que vem de meados de 2016, decidi comparar os diferentes níveis de CTL (ou simplesmente “fitness”, como o próprio Training Peaks traduz) no preparo para diferentes provas. O resultado é esse gráfico abaixo:

Antes, uma explicação rápida dessa poluição toda que aparece no gráfico:

Os pontos vermelhos e azuis correspondem a dias que eu efetivamente saí para treinar (sendo o vermelho o total de TSS, ou “score de estresse do treino”, e o azul a intensidade do treino).

A linha amarela é a minha forma física naquele dia. Ou seja: quanto mais alta ela estiver, mais descansado eu estarei para correr alguma prova; quanto mais baixa ela estiver, mais debilitado eu estarei.

A linha rosa é a minha fadiga naquele dia – uma espécie de leitura inversa da forma física. Ou seja: quanto maior ela estiver, mais cansado minha musculatura estará. Por outro lado, quanto maior a fadiga, maior será o crescimento do meu fitness (ou CTL) – a linha azul.

É aqui que as coisas começam a ficar legais. Um processo de treino inclui toda uma série de cargas com o objetivo de manter a fadiga alta e, consequentemente, empurrar o fitness o mais para o alto possível. Às vésperas da prova-alvo, no entanto, diminui-se a carga para diminuir a fadiga e aumentar a forma em uma espécie de equilíbrio, buscando fazer isso sem diminuir tanto o fitness. Mais explicações sobre isso podem ser vistas aqui.

O que esse gráfico diz sobre os preparos para as provas?

Antes, cabe aqui uma explicação: o Training Peaks traz todos esses dados para todos os esportes, incluindo corrida, ciclismo, natação etc. como, aqui, estamos falando de corrida, apliquei nele um filtro para mostrar apenas os indicadores referentes a corrida.

É isso que explica a queda intensa do CTL depois da fase pré-treino do Unogwaja: como eu estava muito mais focado em pedalar que em correr, o fitness específico para a corrida acabou naturalmente caindo enquanto o de ciclismo, não apresentado aqui, subiu. Apenas para ter uma ideia do efeito: meu maior pico de CTL de corrida foi de 85 pontos, quando estava me preparando para fazer a BR135 em dupla. Meu pico de CTL consolidado (incluindo ciclismo + corrida) no treino para o Unogwaja, por sua vez, bateu os 140 pontos, chegando a 200 pontos no final do desafio.

Mas deixemos isso de lado e voltemos às corridas.

  • Em 19/08/2016 fiz os 140K dos Caminhos de Rosa, uma das mais maravilhosas provas que já corri sob os 43 graus do sertão mineiro. Não fiz o treinamento ideal: coloquei tanta carga em um balanceamento tão mal feito que, no fim, acabei chegado com um CTL relativamente baixo (62) e com uma sensação de overtraining.
  • Em seguida, emendei com 100km em uma prova na Serra do Mar. Meu pico de CTL foi maior, de 77, o que me ajudou a chegar até o fim dado principalmente o estilo da prova (um estradão de terra reto, a perder de vista, sem absolutamente nenhum ponto que pudesse realmente ser considerado bonito).
  • Esse conjunto de provas acumuladas ajudou a manter meu CTL relativamente alto por mais tempo. Em janeiro de 2017, quando fui correr trechos que somavam 160km da BR135, atingi o meu pico histórico de CTL: 85 pontos. Lembro-me que completei a prova relativamente bem mas, olhando para o calendário, acredito que teria alcançado um desempenho melhor se tivesse descansado um pouco mais.
  • Depois disso tive um hiato imenso de ultras grandes, tanto que acabei chegando em um pico posterior de 79 CTL sem nenhuma prova específica na mira.
  • A partir daí, já no final de 2017, comecei a treinar para o Unogwaja e deixei volume e intensidade de corrida despencarem até a Comrades, em junho de 2018.
  • Feita a Comrades, iniciei uma escalada gradativa e constante de volume até a Bertioga-Maresias, em outubro. Cheguei lá com 71 CTL, mas absolutamente exaurido e com a pior síndrome de overtraining que já tive na vida. A causa: estava tentando consolidar treinos de ultra com triathlon sem estar ainda totalmente recuperado do Unogwaja, o que se mostrou um erro.
  • A partir daí aposentei natação e bike e me concentrei na corrida, já com a BR em vista, e fui crescendo o CTL com mais cautela. Hoje, entrando na fase de polimento, cheguei aos 83 CTL. É, curiosamente, uma marca menor à que cheguei em 2017, quando tinha 80km a menos para correr.

Isso será um problema? Espero que não. Além da diferença não ser exatamente grande (apenas 2 CTLs), o ponto de partida foi mais baixo e a intensidade da subida foi maior.

O que esses indicadores dizem (e o que não dizem)?

Primeiro, que CTL realmente é um indicador útil (assim como todos os outros do Training Peaks, aliás). O meu pior pico foi justamente na prova que fiz mais desgastado (a Caminhos de Rosa), enquanto meu maior foi, inversamente, na prova mais longa que já fiz até hoje e que conclui melhor (os 160K da BR de 2017).

O CTL consolidado, como comentei, não está nesse gráfico – mas se estivesse reforçaria esse argumento uma vez que acabei concluindo com sucesso o Unogwaja, desafio que foi 100% planejado, no dia-a-dia, com base nesses indicadores.

Segundo, que CTL sozinho não diz tudo. Isso ficou especialmente claro para mim na Bertioga-Maresias, quando estava com uma pontuação considerada boa na planilha mas me sentindo no lodo do cansaço na vida real.

E, terceiro, que há um limite de crescimento de CTL. Arrisco dizer isso mesmo sem saber o resultado desta próxima BR135 que farei, aliás. Por ter treinado tanto no limite da lesão, está claro para mim que não conseguiria ter segurado um volume igual ou maior por mais tempo, o que também significa que não conseguiria ter chegado em CTLs de corrida acima, por exemplo, dos 90 pontos.

Há um momento, portanto, em que se chega no limite do treino físico para uma ultra. O que fará a diferença entre os 160km que fiz em 2017 para os 220km em 2019, já que estou praticamente no mesmo nível de condicionamento físico? A cabeça.

Mas para ela, pelo menos até agora, não inventaram ainda nenhum indicador confiável.

Ainda.

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