BR135+: Como foi correr 240km ininterruptos pela Serra da Mantiqueira

“Qual a quilometragem real da prova? O tamanho do trecho novo adicionado não bate com a conta total…”, perguntou a Zilma Rodrigues ao organizador da BR135+, sem dúvidas uma das ultramaratonas mais difíceis do mundo, no congresso técnico.

“Sempre há algum erro nas medições, então não sabemos ao certo. Faz assim: meçam nos seus relógios e, ao final da prova, vocês, corredores, nos informam!”, foi a (inacreditável) resposta do Diretor da Prova.

Percurso da BR135+
Altimetria aproximada da BR135+

E assim, às 10 da manhã do dia seguinte, largamos de São João da Boa Vista, na Serra da Mantiqueira, rumo a Paraisópolis. Teríamos pela frente um percurso de algo entre 220km e 250km e uma altimetria acumulada de cerca de 10 mil metros (pouco mais de um Everest) para percorrer em até 60 horas seguidas. Funcionaria?

Da esq. para a dir.: César Moro, eu (Ricardo Almeida), Charlston Benassi, Luana de Ornelas Bianchi e João de Andrade

Era o que eu, meu parceiro de corrida César Moro e nossa incrível equipe de apoio, Charlston Benassi, Luana Bianchi e João de Andrade, estávamos prestes a descobrir.

O Deus me Livre e o Pico do Gavião

A pergunta sobre a quilometragem tinha a sua importância, claro. Em uma prova desafiadora como essa, em que noite e dia se confundem em uma única jornada contínua, alinhar o conhecimento da distância entre corpo e mente é fundamental e, honestamente, uma das informações mais básicas que entendo que uma organização de qualquer prova deva dar, ainda que com alguma margem aceitável de erro.

Como não havia muito o que fazer, deixei esse pensamento atrás da linha de largada e, às 10 horas em ponto da quinta, 17 de janeiro de 2019, parti rumo ao maior desafio da minha vida de corredor.

Desafio, aliás, que já começou pesado. Os primeiros 14km foram rodados em um asfalto quente, sob um sol intenso que queimava toda a serra. E essa seria a parte mais fácil.

Pouco tempo depois entramos na grande novidade da prova, a trilha do Deus me Livre: uma subida pelo meio da mata, praticamente sem sombra e com graus malvados de inclinação. Uma malvadeza emendada em outra, aliás.

Porque 20km depois já estávamos na base prestes a enfrentar a maior de todas as subidas do percurso, no Pico do Gavião. Foi a terceira vez que o subi na vida e, assim como antes, só no meio do caminho fui me lembrar de como ele era alto e íngreme. Ofegante, quase espumando e já sem ar, cheguei no Pico. Era o que bastava para recuperar toda a energia: de lá do alto, os estados de São Paulo e Minas se encontravam em uma beleza tão explosiva que era simplesmente impossível não agradecer a todos os Deuses por estarmos ali, vivos, testemunhando aquele impressionismo todo.

Até que descemos.

E entendemos que uma nova prova havia começado.

Na base do Pico, a marcação da prova dizia que estávamos no quilômetro 40; nossos GPS, no entanto, discordavam e marcavam 60km. Bela margem de erro, não? Engolimo-a e seguimos em frente.

Opostos

A partir daí, iniciamos um sobe e desce que durou horas, muitas horas. Em opostos, praticamente. Quando César se sentia inteiro, eu caía pela metade; quando eu melhorava, ele despencava.

O sol, o céu claro e o calor me faziam bem – mas massacravam meu parceiro; a noite mais fresca e escura o reanimavam, mas me davam sono e multiplicavam o cansaço.

A administração de tudo isso ficou por conta, claro, do time de apoio.

Luana era a organização em pessoa e sabia os momentos certos de parar para garantir que a saúde de todos se mantivesse em condições aceitáveis; Charlston impedia que o cansaço matasse os ânimos com intermináveis séries de piadas; João era um motor inabalável, mostrando um tipo de força e equilíbrio que situações como essas costumam exigir sem dó.

E, assim, entre vistas magníficas e suores deploráveis, cruzamos a Serra dos Lima e chegamos na Pousada da Dona Natalina, um dos pontos de apoio da prova, e combinamos de tomar um banho e descansar um pouco.

O banho reanimou, mas o descanso, de cerca de 20 minutos, não chegou a ajudar muito. Enfim, como combinado é combinado, saímos no momento marcado rumo a Crisólia, já entrando no segundo dia de prova.

A bola de neve

O grande vilão de uma prova desse tamanho não é cansaço ou musculatura: é algum detalhe, algo pequeno que cresce em proporções trágicas.

No meu caso, uma pequena assadura na virilha decidiu se rebelar, ignorar a vaselina e se metamorfosear em uma interminável sessão de tortura.

Crisólia, Ouro Fino, Inconfidentes.

Correr já ficava impossível: caminhava rápido, buscando posições que minimizassem a dor. Descia em marcha ultra lenta; subia em alta velocidade, mas com as pernas abertas para evitar atrito.

Cheguei a olhar para as pernas e ver um fio fino de sangue escorrendo. Ignorei.

Parava, junto com o César, quando precisávamos repor as energias. Continuávamos em minutos. Seguíamos constantes na alternância de ânimos.

Para meu parceiro, o inimigo se formou nos pés com bolhas que se multiplicaram.

Para mim, a dor na virilha apenas crescia.

Mas ainda havia ânimo, muito ânimo, reforçado pelas paisagens magníficas da Serra e pela força da equipe de apoio.

Às três da tarde, em Inconfidentes, decidimos parar e dormir em uma pousada de apoio a peregrinos para driblar o calor de quase 40 graus e recuperar energias.

Entramos em um quarto e apagamos por três maravilhosas horas.

Acordamos por conta própria, revigorados, e partimos. Estávamos como que novos.

Até a virilha melhorou um pouco depois de algum tempo sob efeito da sua nova melhor amiga, o Bepantol.

Fênix, parte 1

A partir de Inconfidentes, de onde partimos às 6 da tarde do segundo dia, voamos. Trotamos onde conseguimos, caminhamos rapidamente onde dava, descemos empolgados, subimos energizados. Passamos equipe atrás de equipe, rimos, batemos papo, surpreendemos tanto a equipe de apoio quanto a nós mesmos.

Esses momentos de ressurgimento, aliás, são a parte mais incrível das ultras: é como se morrêssemos e ressuscitássemos a cada punhado de horas, transformando o impossível e impensável em algo quase natural.

E, assim, foram-se o pôr-do-sol, as primeiras horas da noite, a madrugada.

Chegando na meta desenhada

Já próximo da manhã, a virilha voltou a gritar comigo. Desacelerei novamente. Voltei àquele temido ponto escuro.

Decidimos parar e deitar no carro por trinta minutos, descansando um pouco mais o corpo. Estávamos a aproximadamente 10km de Estiva, marco do penúltimo trecho da prova. Havia ainda cerca de 50km pela frente, mas pelo menos havíamos chegado onde precisávamos estar.

Descansamos.

Acordamos.

Recomeçamos.

César, a esta altura, estava mais forte do que eu: as dezenas de horas caminhando torto para evitar a fricção na virilha haviam detonado minha biomecânica inteira.

Em Estiva, Luana procurou a equipe médica para me dar alguns ponteiros.

Fui aconselhado a tomar um novo banho lá, dispensar a vaselina e usar apenas Bepantol em grande quantidade.

Foi o que fiz – e foi o que acabou me salvando.

Antes dos resultados começarem a aparecer, no entanto, cheguei no meu ponto mais dramático da prova.

Foi o efeito bola-de-neve: caminhar torto mexeu em minha biomecânica e me fez ficar mais lento; a lentidão fez a prova durar mais tempo; mais tempo me fez ficar mais castigado pelo sol e pela prolongada alimentação de prova, sempre longe da ideal.

Faltando 35km eu estava já no meu pior momento. Falei para o César seguir e pedi para deitar em um tatame que montamos na beira da estrada por uns 30 minutos. Precisava desse tempo para decidir se prosseguiria ou se desistiria e, nesse ínterim, o carro de apoio ficaria com ele.

Os 30 minutos de desistência

Tudo, absolutamente tudo passou pela minha cabeça durante aqueles 30 minutos: o treinamento duro que me levou até ali, os rostos da minha família que, a distância, me apoiava, os mais de 200km que já havia percorrido, as horas que ainda teria pela frente, a dor insuportável que estava sentindo já por todo o corpo, o sol que assava toda a Serra no que estava se provando o dia mais quente da jornada.

Quando o carro de apoio chegou de volta para saber o que faria, comuniquei: “Vou desistir. Não dá mais para mim.”

Charlston saiu do carro e falou: “Tem certeza? Você já se lascou por tantos quilômetros que parar agora só vai dar arrependimento. Quer rodar mais 1km e ver se melhora?”

Foi o que fiz.

Com ele como pacer, seguimos 1km enquanto Luana e João voltaram a Estiva para comprar maçãs, a esta altura o único alimento que descia.

Fênix, parte 2: 1km que virou 35.

Charlston me salvou. Entre piadas e xingamentos, o 1km foi absolutamente animador e logo se transformou em 2, em 3, em 4.

O Bepantol em quantidade começou a fazer efeito.

O ânimo voltou.

A musculatura inteira parou de doer.

Estava tão renovado, aliás, que cheguei até a arriscar um trote (que durou algo como 400 ou 500 metros).

Dali até o final seria assim, com o Charlston caminhando como pacer ao meu lado, Luana observando cada detalhe das nossas condições para garantir um mínimo de saúde e João se desdobrando para estar, fisicamente, presente tanto para mim quanto para o César, que a esta altura já estava sendo castigado pelo sol a cerca de 5km à minha frente.

O alerta final: Consolação

15km depois, já na última cidade antes da chegada, em Consolação, estava novo.

Mais ou menos.

Uma foto enviada pela equipe de apoio para o grupo de Whatsapp dos familiares alertou a minha mãe, médica, que, de lá da Itália, percebeu um inchaço e mostrou uma preocupação com uma possível hiponatremia.

Sentei em um banco na praça e liguei para ela. Relatei meu estado inteiro: estava com as mãos inchadas, mas só. Me sentia forte, mais inteiro do que em muito tempo, hidratado e disposto. Fui autorizado a seguir.

Segui.

Só 20km me separavam da meta.

Daquele ponto em diante, cada quilômetro contava e era comemorado como uma vitória.

20 viraram 18.

18 viraram 16.

16 viraram 14.

A esta altura eu até ria.

Haveria ainda um ou outro momento de fraqueza em que eu precisaria sentar e descansar os pés que, claro, já gritavam junto – mas a melhora da virilha, o apoio da equipe e a proximidade de Paraisópolis funcionavam como um belo contraponto.

A chegada

Com mais de 57 horas ininterruptas de prova, matamos as últimas serras.

Começamos a sentir o cheiro da cidade.

Encontramos outros corredores em sofrimento semelhante.

Começamos a rir, a respirar alívio.

Fui embalado por uma alegria inenarrável por não ter desistido e por ter seguido viagem: precisava terminar.

De repente, do alto, avistamos Paraisópolis, cidade que me pareceu mais bonita que Paris, Istanbul, Veneza.

Entramos em suas ladeiras.

Pedimos para o carro de apoio seguir até a praça, para entrarmos juntos na chegada.

E, assim, em 58 horas, 55 minutos e 25 segundos, cruzei a faixa de chegada de Paraisópolis: havia concluído os 239km da BR135+ (que, este ano, teve um “+” considerável).

Entre abraços.

Entre agradecimentos.

Entre felicidades.

Fechando o ciclo

César havia chegado cerca de 2 horas antes de mim e estava lá na praça me aguardando. Recebemos, todos juntos, as medalhas de conclusão. Sorrimos, claro: ali, tudo era pura alegria.

E, dali, fomos para o hotel desabar em uma noite de sono extremaente bem-vinda.

O que ficou de tudo isso?

Muita coisa.

Primeiro, que equipe é equipe: não conseguiria enumerar a quantidade de vezes que fui salvo pelas atenções e cuidados e energias que eles emanaram. Jornadas não se completam sozinhas.

Segundo, que os vilões em grandes jornadas vêm sempre de onde menos esperamos. Quando, depois de tanto treino e dedicação, eu poderia sequer imaginar que uma assadura quase me retirasse da prova?

Terceiro, que grandes caminhos sempre produzem grandes camaradagens. Isso vai além da equipe direta, inclusive: cruzamos com muitos amigos no caminho – Zilma, Pikety, Cordeiro, Clodis, Eduardo, Daniel, Amy, Bisan e outros. Trocamos ideias com cada um deles; falamos sobre o caminho que estávamos percorrendo; discutimos nossas expectativas; nos alimentamos das nossas próprias esperanças; chegamos espiritualmente juntos, embora fisicamente separados por algumas horas.

E, finalmente, que, assim como na vida, grandes ultras são um intercalado de altos e baixos, de dores e sorrisos, de sofrimentos e alegrias. Qual deles ganha? Depende de como controlamos a nós mesmos e de quanto persistimos, de quanto nos conhecemos e de quanto conseguimos dosar os nossos limites. Para mim, chegar ao final foi uma realização inenerrável, como se tivesse vivido e aprendido uma vida inteira naquele interminável dia de 58h55m25s.

Talvez tenha sido isso mesmo que aconteceu.

Talvez.

Agora, enquanto caço os marcos dessa vida na memória e cuido das dores que, lentamente, vão deixando o corpo, tudo parece mais calmo, mais encaixado, mais lógico. Grandes realizações têm esse poder, acredito: elas nos fazem crescer gerações em uma única vida.

E só isso, aliás, já faz valer a pena qualquer prova como essa tão árdua, massacrante, bela e magnífica BR135+.

Alguma mensagem final?

Duas, talvez.

A primeira para o nosso time, incluindo o parabéns ao meu parceiro César Moro, que também batalhou contra os seus demônios, e ao suporte fundamental da Luana, do João e do Charlston, sem os quais eu certamente teria ficado pelo caminho.

A segunda, para a organização. Sim, todos sabemos que é uma prova dura, recheada de desafios e longa como quase nenhuma outra. Sabemos disso porque nos inscrevemos nisso.

Mas não é muito, penso, pedir ao menos uma noção mais aproximada e com antecedência sobre o tamanho do percurso: 239km não são, sob nenhuma margem aceitável de erro, os 217km anunciados.

Também não creio ser um exagero pedir que os postos de controle anunciados ficassem abertos – alguns simplesmente haviam deixado de existir antes dos corredores chegarem lá.

E também não é muito, acredito, pedir que o prometido seja entregue – como o aplicativo de rastreamento que seria usado pelos amigos e familiares para nos acompanharem a distância, algo que não chegou sequer a dar sinais de funcionamento.

Uma jornada como essas, afinal, já tem dificuldades demais para precisar lidar ainda com esses ataques extras vindos justamente da organização, que deveria facilitá-la.

E agora? Farei a jornada de novo no futuro?

Como dupla ou quarteto, talvez. Como apoio, com certeza.

Mas como solo, não. Há jornadas, creio, que são feitas para serem percorridas apenas uma vez – pelo menos para mim.

Concluir a BR135+ foi um marco importantíssimo para mim e incentivo qualquer um que quiser buscá-lo a fazê-lo, mesmo considerando essas questões da organização que comentei acima.

Mas, do meu lado, dou essa jornada como concluída.

Felizmente. E muito, muito feliz.

18 comentários em “BR135+: Como foi correr 240km ininterruptos pela Serra da Mantiqueira

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  1. Adorei!!!! Lindo relato, um dia farei solo, esse ano foi em quarteto pra mim e foi com mtas aventuras e surpresas, algumas boas outras nem tanto!!! Me identifiquei mto com os demonios q vc escreveu, nunca sabemos de onde o “problema” pode vir mesmo! Parabens!!!! Mto sucesso sempre!

  2. Eu já te falei na comrades que vc é um exemplo qdo tive o prazer de estar alguns minutos do seu lado logo após ter feito o unogwaja, e hoje após essa conquitas que tbém passei não como solo mas sim dupla te admiro mto mais,porque está prova é cascuda,meu parabéns Ricardo e continue sendo esse exemplo👏🏻👏🏻👏🏻

  3. Parabéns… assim como Fénix nascemos e morremos em todo o caminho… Parabéns tbm a sua equipe e em especial a Luana. Nos vemos no caminho. Abraço

    1. Oi Ronaldo!

      O modelo de treino foi relativamente simples: larguei cross-training na reta final e me foquei apenas em corrida, em volume semanal. Em km, minhas semanas finais somaram 80-80-100-150-100-60 e a prova.

      Mas sempre me foquei em rodagem semanal como alvo. Meu maior longo foi de 50K mesmo; antes disso, só os 75km da Bertioga-Maresias lá em outubro.

      E toda essa parte funcionou muito bem: mesmo com os imprevistos cheguei super bem, inteiro – ao menos muscularmente.

      A alimentação foi simples: barra de nozes, castanhas e maçã pelo caminho, omeletes e “comida de verdade” quando podia. Não gosto e nem uso nenhum tipo de “pó” ou suplemento ou fórmula mágica. A receita é simples: quando estou com fome, como comida. E isso também funcionou super bem.

      O que me matou foram as assaduras. Não fosse por elas, que me forçaram a andar por mais de 100km quando eu estava perfeito para correr, creio que teria chegado 10 ou mais horas antes. Meu erro aí foi ter confiado demais na vaselina e de menos no Bepantol. Lição aprendida: assou? Comece o tratamento com muuuito Bepantol puro enquanto corre. Vai levar algumas horinhas, mas vai resolver ainda durante a prova.

  4. Seus textos e narrativas são sempre emocionantes e nos levam para o seu lado, em cada Desafio que você encara. Parabéns por mais este!
    Você é uma inspiração!

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