Review: Tênis Columbia Montrail Trans Alps F.K.T.

O que funciona e o que não funciona nesse tênis?

Recebi, dia desses, um par de Montrail Transalps FKT para testar e fazer um review por parte da Keep Running. Bom… pelo meu estilo de corrida, sempre BASTANTE minimalista, costumo ter parâmetros bem diferentes dos tradicionais – o que já fica aqui como uma espécie de disclaimer. Por outro lado, e possivelmente pelo mesmo motivo, é justamente essa visão diferente que pode ajudar ou fazer a diferença para corredores em busca de novos “pneus” 🙂 Seja como for, vamos ao que interessa!

Mais trilha, menos asfalto

Como o próprio nome diz, o Montrail Trans Alps é feito primordialmente para trilhas. E sim: isso faz toda a diferença.

Perceba que não é só o preço que muda de acordo com o terreno – tênis de trilhas costumam ser mais caros que tênis feitos para o asfalto. Em terrenos mais irregulares, outros fatores costumam entrar em cena – como o grip, o respiro e a proteção dos pés (até para quem, como eu, corre de maneira mais minimalista).

No asfalto, por outro lado, essas preocupações são muito, muito menores. O grip é quase irrelevante uma vez que dificilmente você escorregará em uma rua normal; o respiro tem importância moderada ao fazer com que a água de um dia chuvoso saia mais rapidamente dos pés; e a proteção depende mais do estilo de corrida de cada um.

Ou seja: um tênis muito bom para trilhas pode funcionar bem para o asfalto – mas é importante ter em mente que você pagará por características que não necessariamente precisará no seu dia-a-dia. Se você for trilheiro, por outro lado, aí tudo muda.

O grip

Essa foi, na minha opinião, a melhor parte do Montrail Trans Alps. A imagem da sua sola já fala mais que qualquer conjunto de palavras:

Há pregas em todas as direções e sentidos, essencial para minimizar a chance de escorregões em terrenos mais acidentados ou úmidos. É claro que quedas dependem mais do senso de equilíbrio de qualquer corredor – mas, neste sentido, o Trans Alps certamente ajuda.

A proteção

Eu costumo correr, no asfalto, com um Merrell hiper minimalista ou com um Vibram Fivefingers. Ou seja: sou a última pessoa do mundo que elogiará excesso de estrutura, até porque acho que isso mais atrapalha do que ajuda uma vez que faz um elemento externo interferir na biomecânica.

Todos esses papos de estilo pronado, supinado etc.? Na minha opinião e pela minha experiência (incluindo anos e anos correndo ultras de todas as distâncias imaginadas sem nunca ter tido nenhuma lesão mais grave), tudo isso é besteira. Se seu joelho dói correndo, se suas costas incomodam, se qualquer inconveniente mais esquisito aparece depois de um treino, tenha certeza de que não é um tênis que vai resolver o problema: é um entendimento maior seguido de um ajuste na sua maneira de correr, na sua biomecânica.

Dito isso, repito que correr na rua é diferente de correr em trilhas. Em montanhas, por exemplo, as irregularidades são tamanhas que, se você usar um FiveFingers, corre o risco de terminar uma prova pequena com dores generalizadas na plantas dos pés.

O que faz a diferença? Uma sola rígida o suficiente para garantir um conforto às plantas dos pés mas flexível o suficiente para evitar que nos sintamos calçando uma sandália de madeira, o que acabaria martelando sadicamente as panturrilhas.

Nesse quesito, o de proteção, o Montrail Trans Alps funciona hiper bem.

O respiro

Outro ponto mais relevante para trilhas do que para o asfalto, pois em montanhas ou costões é natural que acabemos atravessando riachos, poças maiores, charcos ou coisas do gênero. A capacidade do tênis de “expelir” a água acumulada, portanto, é importantíssima.

Sem maiores comentários aqui: o Trans Alps desempenha esse papel super bem.

O cabedal

O cabedal é a parte da frente do tênis, que envolve os dedos. Costumo aplicar aqui uma fórmula simples: quanto maior o tamanho da prova, maior precisa ser o cabedal. O motivo?

Um cabedal pequeno demais acaba gerando impactos constantes nos dedos durante as descidas e subidas comuns em trilhas – o que quase sempre resulta em perdas de unhas dos pés. Um cabedal grande, por outro lado, dá mais espaço para os dedos e diminui o atrito com a parte interior do tênis. Esse, aliás, é talvez o fator mais importante para mim na escolha de um tênis.

Mas há mais na avaliação do cabedal: o seu material. O cabedal de um Salomon S-Lab costuma ser tão rígido, mas tão rígido, que sinto minhas unhas querem deixar meus dedos já nos primeiros 20K. Protege os pés? Sim. Mas de que adianta ter pés protegidos de pedras se eles ficam envolvidos por uma espécie de sessão interminável de tortura chinesa?

Bom… como o Montrail Trans Alps se encaixa nessa availação? ele não é nem tão espaçoso quanto um Merrell e nem tão apertado quanto um Salomon. Funciona.

Mas confesso que, para distâncias maiores, a partir de 50K, eu já consideraria seriamente arrancar de vez a palmilha. Diminui a proteção e o acolchoamento? Sem dúvidas. Mas acho o acolchoamento de um tênis irrelevante e prefiro muito mais o espaço que fica em seu lugar.

O acolchoamento

Já que estamos nesse assunto, vale ressaltar que o acolchoamento do Trans Alps é, sem dúvidas, bom. Ele não tão excessivo quanto um Hoka (que eu pessoalmente abomino por me dar a sensação de estar correndo em uma nuvem e confunde toda a minha biomecânica) e nem inexistente quanto um Vibram.

Mas aqui entra a preferência pessoal de cada corredor. Se, para você, um tênis acolchoado o suficiente para garantir conforto funciona, ótimo.

O drop e o efeito na biomecânica

A imensa maioria dos tênis, seja para trilhas ou corridas, tem algum nível qualquer de drop – diferença de altura, em milímetros, entre a parte da frente e a de trás.

Um tênis com drop grande faz com que o calcanhar fique mais elevado que os dedos; um tênis sem drop nenhum deixa toda a planta do pé no mesmo nível.

O que é melhor? Drop zero. ZERO. Por que? Porque qualquer tipo de drop, obviamente, ajuda o corredor a tocar o chão primeiro com o calcanhar – um dos maiores erros de biomecânica que podem existir.

Esse, para mim, é o ponto fraco do Trans Alps, que tem um drop de 6mm (10mm de altura na frente e 16mm atrás). Seria perfeito se o drop fosse de zero.

6mm atrapalham? Honestamente, não tanto. Se você utilizá-lo em uma esteira, certamente sentirá uma quase impossibilidade de pisar da maneira correta – mas não é para uma esteira que se compra um tênis desses. Nas trilhas (ou mesmo no asfalto), os problemas impostos à biomecânica são, no máximo, moderados, contornáveis.

Em outras palavras: eu não desistiria de comprar o Trans Alps por esse fator, mas sem sombra de dúvidas preferiria que ele inexistisse.

O peso

É um ponto forte do Trans Alps, que pesa 312g. Apenas para efeito de comparação com outros tênis de trilha: o Saucony Peregrine ISO, um dos mais celebrados da categoria, pesa 595g; o La Sportiva Bushido 2, 595g; o Hoka One One Speedgoat 3 (eca), 584g; o New Balance Minimus 10v1, 419g; o Inov-8 RocLite 315, 295g.

Ou seja: há tênis mais leves que ele, sem dúvidas – mas a maioria dos modelos mais trilheiros acaba sendo mais pesado.

O encaixe

Não sei se definiria isso como um ponto forte ou fraco. O tênis realmente dá um abraço forte nos pés, o que gera uma consequente sensação de segurança estrutural. Por outro lado, isso também traz algum desconforto, como se ele estivesse apertado demais, principalmente em corridas mais longas como ultras. Em uma escala de 0 a 10, nesse quesito, eu daria um 5.

Qual o veredito final?

Se você curte trilhas mais técnicas e acidentadas de média distância (até o limite de uma ultra), é uma excelente escolha. O Montrail Trans Alps é bem estruturado, protege a planta do pé, tem boa respirabilidade, um grip bem confiável, um cabedal de tamanho e material razoável e um drop que não chega exatamente a atrapalhar.

Para distâncias maiores, já não sei se aconselharia pelo tamanho do cabedal (que, com mais quilômetros, começa a parecer mais apertado) e pelo encaixe que talvez seja excessivo.

E para o asfalto? Bom… aqui vai o que serve para qualquer tênis de trilha: ele funciona com as mesmas considerações acima, porém tem características que certamente o encarecem e que você provavelmente não precisará nas corridas em cidades.

O Montrail Trans Alps FKT custa de R$ 705 a R$ 750 a depender de eventuais promoções.

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