Na intensidade do infinito

Das três atividades que se somam no triathlon, natação não é exatamente o meu favorito. Não tem balé em velocidade aérea do ciclismo, não tem a simplicidade crua da corrida, não tem a naturalidade dos esportes rodeados pelo ar limpo, livre, transparentemente leve.

Mas isso não significa que ela seja tão desprovida de singularidades próprias, claro.

Ao contrário: há presentes que só ela consegue dar.

Como a sensação de absoluta solidão quando se corta a lâmina da água só, à noite, em uma piscina.

Ou quando se observa, pelos óculos, aquele azul que se escurece gradativamente até o infinito, lá na outra borda.

Ou quando se vai e volta e vai e volta e vai e volta, como que vivendo a vida de um pêndulo constante, inabalável, metronômico, suavemente ritmado.

Quando se deixa de ser um ser e se abandona o próprio conceito de tempo para se transformar em um pedaço de silêncio quebrado apenas pelas gotas de água respingando-se por si mesma.

E assim por quatrocentos, mil, dois mil, dois mil e seiscentos metros. Por segundos que se desaguam em minutos que se desaguam em horas que se transformam em uma espécie de eternidade finita.

Não, não há o balé em velocidade aérea do ciclismo ou a simplicidade crua da corrida, mas a natação é o único dos esportes que nos deixa degustar o infinito, ignorar o tempo, virar silêncio.

Talvez essa seja a maior vantagem do triathlon: sua composição nos entrega tantas sensações diferentes disfarçadas em esportes complementares que a vida inteira fica bem mais multidimensional, completa, intensa.

E isso é simplesmente incrível.

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