Começando dias melhores que os outros

Clack. Clack. Swoosh, swoosh, swoosh.

Na penumbra que ainda persiste nas ruas da Cidade Universitária às 5 da manhã, o silêncio é quebrado apenas por sapatilhas clipando em pedais e o pretume da noite, por figuras bailando sobre duas rodas.

O mais bonito do ciclismo não é o esporte em si, provavelmente o mais duro e intenso que há no mundo: é a suavidade com que tudo parece se desenvolver.

Há uma rotatória de 500m lá na USP, apelidada de “bolinha”, onde todos se aquecem antes de desbravar as ladeiras da universidade. Basta olhá-la para entender a dinâmica do esporte: dezenas de ciclistas giram simultaneamente em sua órbita durante todas as manhãs, alternando apenas as velocidades e marchas e cadências. Ora levantam-se para transferir mais potência aos pedais, ora encaixam-se confortavelmente no vácuo de algum outro ciclista à frente, ora descansam os braços nos aerobars e as mentes no além enquanto repetem o eterno giro com as pernas.

Depois de algum tempo – minutos ou horas – deixa-se a bolinha para outros rumos.

No meu caso, o vôo me leva à Rua dos Bancos, depois à subida do cavalo, à subida da Biologia, à descida de volta até a Rua dos Bancos, a uma outra subida, mais longa, até o topo da Cidade Universitária, depois por uma rápida descida até o portão principal, onde retorno e subo até a Rua dos Bancos e recomeço o giro. Tudo sem pensar, apenas alternando posições na bike para me manter bailando com a eficiência que vôos requerem e com a elegância que o ciclismo exige.

Batimentos cardíacos sobem e descem na medida do esforço, cadências se aceleram ou se brutalizam, a respiração parece um permanente suspiro hipnotizado.

Tudo é uma hipnose, aliás, nesse esporte tão intensamente suave. As horas parecem não passar; os quilômetros voam como o vento que sopra, frio, o rosto; a mente viaja para mundos e tempos aleatórios.

Até que, de repente, volto ao local onde o carro está estacionado.

O dia já está claro. De repente.

O frio começa a ceder espaço às brisas quentes da manhã. De repente.

As onomatopéias se multiplicam na medida em que outros ciclistas se desclipam, suspiram, guardam suas bikes nos seus respectivos carros e partem para começar o dia das pessoas normais. De repente.

Mas é difícil, muito difícil manter-se normal como os outros depois de se começar o dia com mais de uma hora de suave endorfina sendo soprada corpo adentro por esse balé tão inigualável proporcionado pelo pedal.

Ainda bem.

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