70.3 solo, parte 1: Natação

Olhei para os lados: ninguém. Para a frente: boias de marcação solitárias quebravam a paisagem lisa, silenciosa e belíssima da represa que parecia descansar sob o céu frio e azul das 7 da manhã.

Ali, naquele instante, começaria o meu primeiro 70.3. Diferente do planejado, sem tiros de largada, sem a adrenalina da coletividade, sem a eletricidade atmosférica, sem o volume de uma competição mundialmente famosa. Ali era só eu e o lago.

Conferi touca e óculos de natação, apalpei a roupa de borracha para saber se estava bem fechada, apertei o botão de “iniciar” do relógio. E mergulhei.

Teria 1h10 para fechar o percurso da natação que consistia, essencialmente, em duas voltas em torno das boias mais distantes e uma em torno das mais próximas. Oficialmente, deveriam ser 1900m; na prática, a distância real dependia da assertividade do caiaqueiro que posicionou as boias nas águas da Represa Billings.

Nada disso importava nas primeiras braçadas, no entanto. Ali, só o que valia era o frio de uma manhã de inverno paulistana entrando, em forma líquida, roupa de borracha adentro. Eram pequenas ondas de choque começando pelos pulsos e tornozelos e caminhando pelos braços e pelas pernas até me abraçarem por inteiro.

Depois, presa ao meu corpo pela roupa, a água se esquentava a cada batida do coração, a cada braçada, a cada movimento.

E assim fui me recordando paulatinamente das técnicas que treinei na medida em que o frio ia se tornando uma distante recordação.

Ouvindo apenas o barulho da água remexida pelos splashes gerados a cada braçada.

Prendendo nas pupilas aquele cenário tão bonito feito de céu azul terminando na lâmina escura da água.

Splash, splash, splash.

Dá tempo de pensar em tanta coisa em uma natação por águas abertas… em tanta coisa…

Porque não há bordas, não há linhas guia no fundo, não há nada. Há apenas o verde distante do outro lado e as boias flutuando em algum lugar.

Contornei a primeira boia amarela, depois a segunda, depois a terceira.

Pensei em um mundo inteiro.

Fui para a segunda volta.

“Devo estar há horas aqui”, pensei, pela primeira vez preocupado com o tempo. “Será que vou conseguir chegar a tempo?”

Fechei a segunda volta.

“Faltam apenas as boias laranjas, fechando o percurso.”

Uma. Duas.

Boia amarela final à frente.

Acelerei.

Deixei para trás a paz silenciosa do começo, trocando-a pela pressão de um tempo que nem suponha onde estava.

Últimas braçadas.

Chão à vista debaixo de mim.

Me ergui, saindo da represa o mais rapidamente possível, e olhei o relógio: 2.250 metros nadados, 42 minutos!

Estava bem, extremamente inteiro e feliz como poucas vezes antes. Apertei o botão que encerrava a natação e iniciava a transição de esporte no relógio e corri até o rack onde minha bike estava tirando, no caminho, óculos, touca e roupa de borracha.

Coloquei tudo em uma sacola. Enxuguei os pés. Calcei meia e sapatilha. Coloquei capacete e óculos. Tirei a bike do rack.

Fui com ela correndo, como manda o regulamento do evento, até o ponto de montagem. Apertei o botão que marcava o fim da transição e o começo do ciclismo.

Montei.

Parti para os 90km que me esperavam.

Percurso de natação no Riacho Grande

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