70.3 solo, parte 3 (final): Corrida

Antes de dar os meus primeiros passos, imaginei que seria difícil correr a meia maratona com aquele cansaço todo.

Quando dei os primeiros passos, sentindo aquele peso do início de corrida imediatamente depois de pedalar, tive absoluta certeza disso.

Mas, depois de cinco, talvez 10 minutos… tudo mudou.

Não sei ao certo como ou por que motivo lógico, mas o fato é que aquela meia maratona inteira acabou sendo talvez a mais fácil e gostosa que havia corrido em meses.

Àquela altura, o calor já reinava alto no Riacho Grande e tentava de tudo para me chibatar e arrancar rios de suor. Apaixonado pelo calor, eu apenas sorria.

Àquela altura, me dava conta de que saíra para correr sem uma única garrafinha de água e sem um único centavo para comprar qualquer líquido que fosse no percurso. Mas me lembrava, ato contínuo, de que havia uma bica no meio do caminho e um bebedouro no portal da Estrada Velha.

Àquela altura, estava praticamente sozinho em todo o percurso do Riacho Grande, o mais tradicional ponto de prática de triathlon em toda a região metropolitana de São Paulo. Mas estava amando aquela solidão toda.

E assim, entre dificuldades frugais e soluções instantâneas, fui comendo quilômetro por quilômetro.

Os 21 viraram 18. Os 18 viraram 15. Os 15 viraram 10.

Da estrada vazia eu revivia as águas da represa que estavam logo ali, lisas, lindas, escuras. Relembrava a sensação de vôo do ciclismo. Procurava sentir o cheiro do mar de Maceió, confundindo o calor paulistano com o nordestino, provando o salitre e a umidade nordestina com a mais pura imaginação.

Os 10 viraram 7.

Àquela altura, estava já imerso em uma sensação de alegria endrominada tão intensa que dificilmente conseguiria explicar a quem quer que fosse que cruzasse o caminho.

Os 7 viraram 4.

Alguém cruzou o caminho. De carro, Focá, meu treinador, parou para me oferecer um Gatorade gelado.

De início, achei que estivesse alucinando, tamanha a sede. Depois que constatei a realidade, bebi o que pude.

“Faltam 4km”, comentei.

“Parabéns! Precisamos apenas de uma medalha agora!”, ele respondeu.

E segui.

Os últimos quatro quilômetros foram quase instantâneos, feitos sob um sorriso que não se desfez por um segundo sequer.

Faltando poucos metros reconheci o pórtico que inventei para mim mesmo: o portão de entrada para o Billings Country Club, onde meu carro estava estacionado e onde minha bike descansava no rack.

Subi a ladeirinha que levava até lá.

Cruzei a faixa de chegada imaginária.

Aumentei o sorriso silencioso.

Apertei o botão de fim no relógio.

Incluindo o tempo gasto nas duas transições improvisadas e os minutos que gastei até conseguir partir no ciclismo, completei o meu primeiro IM 70.3 – ainda que não oficial – em 6 horas, 41 minutos e 8 segundos. Um tempo provavelmente pior do que eu faria em uma prova organizada, real – mas perfeitamente dentro do tempo limite de 8 horas ditado pelo regulamento.

Estava extasiado.

E, extasiado, dei um suspiro de alegria, olhei ao redor e fiz o que poderia: tirei a minha bike, que descansava solitária no rack, e guardei-a de volta no carro juntamente com todos os equipamentos.

E voltei dirigindo, sozinho e realizado, de volta para casa.

Riacho Grande

Um comentário em “70.3 solo, parte 3 (final): Corrida

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  1. Parabéns pela dedicação aos treinos, experiência de “prova” e toda narrativa, foi inspiradora.
    Estou me preparando para meu primeiro 70.3 também de SP (olímpico tb kkk)

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