Ohana Kahi 127.5: a prova perfeita

Como uma beleza apocalíptica e pura endorfina podem se fundir em uma única prova

A garoa que durou a noite anterior inteira já deixava uma pista de como seria esse triathlon de distância peculiar (2.500m de natação, 105km de ciclismo e 25km de corrida) pelo litoral norte de São Paulo. Quando chegamos na praia do Perequê-Açu e colocamos as nossas bikes nos seus devidos lugares, imediatamente projetamos o quão diferente seria aquele dia. Diferente e inesquecível.

Natação

Com algumas palavras em círculo (facilitadas por conta do número pequeno de participantes desta primeira edição – apenas 15), voamos todos para o mar.

A água parecia vir de todos os lados: ondas que quebravam no rosto, chuva despencando do céu e um abismo verde escuro que parecia desafiar cada um dos nadadores. Mas não um desafio ruim, daqueles que vêm acompanhado de ameaças: mesmo em condições tão ásperas, aquela água salgada toda parecia dar as boas vindas gerais, curtindo a prova como se fosse ela própria uma atleta.

Não que não tivessem havido dificuldades: com condições climáticas tão adversas, enxergar as bóias que deveríamos contornar era um desafio por si só. Na maior parte das vezes, aliás, eu me contentava em marcar um atleta à minha frente e segui-lo, torcendo para que ele não estivesse indo para o lugar errado. Funcionou – ainda bem.

Determinada a estratégia, me restava apenas encaixar as braçadas e aproveitar. E aproveitei. Essa, aliás, foi um dos melhores nados da minha vida – pelo menos no aspecto do divertimento, já que a performance acabou um pouco comprometida pela maré.

Saí do mar quase triste, com saudades dos minutos que acabavam de ficar para trás e com um pouco de medo do que me esperava.

O pedal

Não se tratava apenas de pedalar normalmente, como em uma prova qualquer. O percurso incluía duas voltas de 52,5km, ambas iniciadas no destroçado “asfalto” do centro de Ubatuba e continuado pela BR101, a Rio-Santos, na companhia de carros, caminhões e ônibus. E, além do asfalto da própria Rio-Santos também não ser exatamente perfeito, liso, havia ainda a interminável chuva que somava dificuldades importantes.

Entre toró e carros, seguimos nosso rumo. No meu caso, níveis mais elevados de tensão (e atenção) massacraram as costas imediatamente – mas foram, aos poucos, cedendo espaço para outro tipo de panorama.

A Rio-Santos. Acho difícil que alguma outra estrada no Brasil seja tão incrivelmente bonita quanto ela. De um lado, paredões de puro verde, eventualmente cedendo espaço para uma ou outra cachoeira e sempre cantando barulhos de macacos e pássaros; de outro, o mar do litoral norte paulista, com suas ondas se debatendo nos rochedos tão infinita quanto calmamente; e para cima, a chuva dava o seu toque apocalíptico à paisagem, grifando o nível de dureza daquele percurso, daquele dia, daquela prova.

Ainda assim, as mais de quatro horas no pedal foram divididas entre o assombro com aquela beleza toda e a tensão com os carros, as poças que poderiam esconder buracos-armadilha, os galhos caídos no acostamento que pareciam feitos para furar pneus.

Mas, além da beleza, havia um outro elemento a nosso favor: a Polícia Rodoviária Federal. O tráfego aumentava? No mesmo instante aparecia um motoqueiro da PRF atrás de cada ciclista para garantir proteção. Algum trevo precisava ser contornado? Outro motoqueiro aparecia com sirenes ligadas para evitar que carros cruzassem o nosso caminho. Alguém dava ares de estar perdido? Outro motoqueiro tomava a dianteira e mostrava onde virar.

Em muitos pontos, aliás, a sensação de segurança era tamanha, que pedalar pela própria pista, deixando o acostamento arrebentado de lado, virava quase uma obrigação.

E assim foi… até que, pouco mais de quatro horas depois, lá estava eu entregando a bike na transição e me preparando para a corrida.

Os 25km finais

Quando se passa tanto tempo sob o estresse do pedal naquelas condições, correr é como um presente divino.

Foram, arrisco dizer, alguns dos melhores 25km que já fiz. Tudo, tudo era pura felicidade: a sensação de estar prestes a concluir a prova, o percurso pela orla, o morro em estrada de terra ao final de cada volta de 12,5km que nos presenteava com a mesma sensação de verde vivo com os animais escondidos em suas florestas.

Lá pela metade do percurso, um outro corredor se aproximou de mim: Andrius, irmão de um dos organizadores da prova. Ambos encaixados no mesmo ritmo, ambos felizes, ambos curtindo aquele período tão simples, tão fácil e tão “inperigoso”.

E ambos, depois de 2h30, acabamos cruzando juntos o pórtico de chegada, compartilhando e multiplicando sorrisos.

Foi a prova perfeita

Pela dureza das condições do percurso vencido. Pela beleza quase histérica da Mata Atlântica. Pela organização incrível do Luna e da equipe, praticamente redefinindo os conceitos de generosidade e simpatia. Pelo impensável de ter um mito como Alexandre Ribeiro, outro organizador, gritando meu nome e me desejando força a cada passagem pelo posto de controle central. Pela atuação tão parceira da PRF. Pelas horas de treino que compensaram. Pelo tanto de endorfina que esportes de endurance geram. Pelo mar. Pelo vento lambendo o rosto. Pela chuva. Pelo asfalto. Pela estrada de terra no morro da corrida. Pelo esporte de triathlon.

Pelo espírito do Ohana Kahi que, de fato, só se compreende verdadeiramente depois de se fechar uma prova assim.

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