Comrades Virtual: Relato de Prova

Como foi correr a rainha das ultras a partir da porta de casa

Correr a Comrades sem o clima da África, sem a multidão multi-etária e multicolorida e sem as paisagens sempre motivadoras do Vale dos Mil Morros não é, exatamente, o sonho máximo de um corredor. Mas, dada toda a devastação causada pela pandemia, é o sonho possível.

Basta então sair de casa e correr? Não. Um pouco de inspiração sempre é bem-vinda para que a mente busque na nostalgia a ambientação de Pietermaritzburg.

E, assim, às 5:23, me preparei para largar da porta da minha casa ouvindo os 7 minutos de hinos, de Shosholoza, de Carruagens de Fogo e do galo cantando. Exatamente como na largada real.

Eu antes da largada

E aí, sim, larguei.

Meu corpo observou semáforos, subiu e desceu viadutos, se esgueirou por ciclovias vazias no escuro paulistano e desceu até o Parque Villa-Lobos. Minha mente, no entanto, estava longe, bem longe: sentindo os outros mais de 43 mil corredores que estavam se desafiando da mesma forma, cada um em seu canto do mundo, todos formando uma corrente invisível da mais pura energia africana.

Corrente, aliás, que volta e meio passava a ser visível: a quantidade de brasileiros participando desta que se transformou na maior prova virtual do mundo era tão grande que logo encontrei outros corredores exibindo seus números de peito e mantendo seus paces firmes.

“Shosholoza!”, gritávamos uns aos outros com a ciência perfeita do que cada um estávamos passando. Senso de comunidade forjado pelo desafio coletivamente individual.

Os primeiros quilômetros

A primeira maratona transcorreu assim: de casa, nas imediações do Sumaré, até Parque Villa-Lobos, Parque do Povo, Ibirapuera. Voltas e mais voltas circundando esses espaços sagrados de treino da cidade, conversando com outros comradeiros, ignorando a mochila de hidratação que prendia seus 3 quilos nas costas e seguindo firme.

Subi depois até a minha antiga faculdade. Rodei pela Vila Mariana. Subi e desci vielas.

E decidi mudar de rumo: como 90km, afinal, é uma distância longa, por que não seguir até o Palácio do Ipiranga e rodar um pouco pela história da cidade? Com isso somaria ainda o bônus de encarar mais subidas e simular melhor o percurso real da prova.

A sempre má ideia de improvisar em uma prova

Não foi a melhor das ideias por um motivo simples: eu não conhecia o caminho.

Até aí, o Google Maps poderia ajudar ditando as direitas e esquerdas enquanto eu corria, claro: desde que não parasse, cada metro contava nessa prova virtual.

O problema foi que o aplicativo decidiu fazer birra: me mandava por vias erradas, me pirraçava em ruas sem saída, travava. A única solução? Parar, sacar o celular e tentar me localizar pelo mapa e pelas placas de rua.

Uma vez. Duas vezes. Três vezes. N vezes.

Até que cheguei ao Palácio – ainda bem. Uma, duas, três voltas, todas como um respiro de alívio misturado à beleza sempre embasbacante daquele conjunto de monumentos históricos.

O Vale Cinza

Quando chegou a hora de voltar, estava já por aquele miserável lugar entre o quilômetro 50 e 60: o Vale Cinza.

Seja na África ou no Ipiranga, ele nunca falha: aparece de repente, surfando uma onda de cansaço e tristeza, e quebra inteiro no corpo.

Tudo fica difícil: as pernas ficam pesadas, a mente se entrega a cálculos mentais de tempo e distância, a graça da prova desaparece por inteiro. Tenta-se todas as estratégias, de músicas e vôos de pensamento, mas nada funciona: o Vale persiste dragando os pés em sua areia movediça, atormentando os sentidos e sugando as melhores expectativas.

No meu caso, ainda por cima, a volta do Ipiranga para a região da Vila Mariana ainda teve uma repetição da minha briga com o Google Maps. Parar, nesse estado, para me localizar e descobrir qual o caminho que eu deveria fazer, era de uma frustração miseravelmente tortuosa.

Mas o Vale, ainda que tenebrosamente desestimulante, passa. Basta persistir.

O outro lado

Quando me vi de volta na Vila Mariana, já próximo aos 65km, estava novamente inteiro, revigorado, feliz. Fiz meu caminho até o Ibirapuera. Dei uma nova volta.

Desci pela República do Líbano até a Faria Lima. Subi a 9 de Julho. tomei a Brasil. Estados Unidos.

Estava no caminho de casa, na reta final, sentindo a chegada no Estádio de Durban próxima.

Até que olhei o relógio.

Aparentemente, a perda de tempo no Ipiranga somada ao desgaste de se fazer a prova sozinho, sem apoio nenhum, lascou as minhas previsões de tempo.

Na melhor das previsões eu chegaria aos 90 raspando o tempo de corte de 12 horas. Desde que acelerasse.

Com tornozelos e pernas absolutamente mastigadas, me entreguei ao pânico da corrida. Dali em diante olharia apenas relógio e asfalto, asfalto e relógio.

Voei pela Sumaré e pelo cotovelo nas proximidades do Parque da água Branca.

Asfalto, relógio, relógio, asfalto.

11 horas de prova. Tinha ainda 8km pela frente. Com pernas absolutamente castigadas e algumas subidas relevantes.

Corri.

Voltei até o Allianz Park.

Subi o Viaduto da Pompeia.

Tempo correndo.

Desci o viaduto. 30 minutos para 4km.

Entrei no Jardim das Perdizes. Tinha pouco menos de meia hora para dar 4 voltas por um parque com algumas subidas e descidas. Se parasse para caminhar ou respirar, perdia.

Àquela altura, tudo era uma mescla de dor com força de vontade. E tudo era uma questão de escolher qual dos dois merecia prioridade.

Fui com a força de vontade e não parei.

11h56.

11h57.

Faltavam alguns metros apenas.

Poucos metros, ainda que o tempo cismasse em continuar passando ignorante a todo o meu sofrimento.

Dor. Distância. Velocidade.

Velocidade. Distância. Dor.

Até que, finalmente, quando o relógio marcou 11h58 minutos, tive a certeza de que chegaria a tempo.

E, 36 segundos depois disso, o GPS apitou os 90km.

Cheguei.

11h58m36 – 1 minuto e 24 segundos para o corte.

Informações do percurso

A inesquecibilidade da prova virtual

Depois disso, tudo foi só comemoração.

E, apesar da prova real ser obviamente muito mais inspiradora, instigante e divertida, não há como não pensar nos pontos altos dessa Comrades Virtual – principalmente depois de uma chegada tão solitariamente apoteótica.

Primeiro, pela conexão familiar. Eu fiz a minha prova daqui – mas, ao mesmo tempo, minha mãe, de lá da Itália, e meu irmão, dos Estados Unidos, fizeram os seus percursos. Foi a primeira vez que corremos juntos – e isso foi inesquecível.

Segundo, pela experiência. Toda nova experiência só nos acrescenta, claro: e fazer uma prova dessas desafiando o espaço-tempo é, sem a menor sombra de dúvidas, absolutamente marcante.

E terceiro – mas não menos importante – pela chegada em si. Ao invés da escadaria do Estádio de Durban, cheguei na porta de casa para abraços e beijos da minha mulher e das minhas filhas, com direito a um troféu muito, mas muito mais bonito que qualquer medalha.

Espero, do fundo do coração, que a Comrades de 2021 aconteça novamente em solo africano – mas jamais esquecerei esta Comrades Virtual, batizada pela organização de Race of Legends, que pela sua singularidade se imortalizou como uma das provas mais icônicas que já fiz na vida.

Eu depois de chegar
O melhor troféu
Certificado oficial

4 comentários em “Comrades Virtual: Relato de Prova

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  1. Que texto, embora demonstre sua prova virtual, lembrei-me de cada trecho dos 90 Km da Comrades. Sensacional… desejo que 2021 seja novamente naquela aglomeração maluca da largada e que a chegada tenha aquela cena emblemática do tempo encerrando… 11:59:59… #vaidarcerto – Forte abraço Campeão!!!

  2. GRANDE COMRADEIRO RICARDO ALMEIDA. PARABÉNS PELA DEDICAÇÃO E POR LEVAR ESSA BANDEIRA DA COMRADES E DOS AMANTES DESSA ATIVIDADE MARAVILHOSA QUE É A CORRIDA. SAÚDE, FORCA SUCESSO SEMPRE. DOS COMPANHEIROS. LUIZ CLEMENTE E LIS . COMRADES 12014 E 2015.

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