Como o corpo está reagindo à quarentena

Para além dos adjetivos comuns, como, exatamente, o organismo está sentindo esse período?

Minha vida “normal” deixou de existir no dia 23 de março de 2020. A partir daquela data, o trabalho passou a ser feito de casa e uma série de mudanças na rotina se fizeram presentes: crianças foram deixando a escola e se entregando ao ensino a distância; o cotidiano na empresa foi tomado por um furacão feito por mudanças bruscas nas ofertas, renegociações generalizadas, gestão nos mais profundos níveis emocionais da equipe e um controle cirúrgico de cada micro-número; provas que tinha como alvo foram canceladas; locais de treino foram fechados; familiares que já moravam longe se distanciaram ainda mais por conta da impossibilidade de fazer valer a vontade do contato a qualquer momento.

Até aí, nada de muito diferente do que muita gente passou e continua passando. Mas, no meu caso, há um gadget fantástico para entender o que esse período representou para o meu próprio organismo: o Whoop e a mensuração 24×7 do HRV, uma métrica fantástica para se interpretar o corpo (clique aqui para saber mais).

Como essa análise foi feita?

Como a quarentena é essencialmente individual do ponto de vista de impacto em nossas vidas, eu acabei segmentando a minha análise em três grandes fases.

  • Fase 1: Período de base pre-quarentena. Peguei cinco semanas que antecederam o 23 de março como uma espécie de controle, de parâmetro da normalidade.
  • Fase 2: Período mais intenso, com mais estresse no trabalho, aprendizado para lidar com duas crianças em casa sozinho e com locais de treino fechados (incluindo rotas de pedal e a falta da piscina, o que fez a natação se transformar em uma rotina de treinos funcionais).
  • Fase 3: Período de maior relaxamento, incluindo o encaixe no novo normal, uma diminuição importante de estresse no trabalho e a volta (ufa!) da piscina e, consequentemente, dos treinos de natação.

Os indicadores utilizados

Foram, no total, três diferentes indicadores utilizados:

  1. HRV, ou Variabilidade de Batimentos Cardíacos: É o que melhor expressa o estado geral do corpo considerando todas as variáveis. Esse indicador foi o utilizado como base para todas as comparações.
  2. TSS (saiba mais aqui): Total de estresse imposto ao corpo exclusivamente por conta dos treinos.
  3. Performance do Sono: Percentual que considera a necessidade diária de sono vs. o tempo real que passei dormindo (principalmente nos dois estágios regenerativos, o de sono profundo e o REM).
  4. Taxa de Recuperação: Percentual que indica quanto o corpo se recuperou/ regenerou depois do sono da noite anterior.

Não entrarei em detalhes de como esses quatro indicadores são medidos uma vez que suas fórmulas são excessivamente complexas para um post. Exceto pelo TSS, medido pelo TrainingPeaks, os outros três foram captados pelo Whoop.

HRV vs. Performance do Sono

A primeira observação – e essa vale para todos os gráficos – é sobre o HRV. De uma média acima de 100 ele despencou para a casa dos 80, fechando em uma média de 90 (com tendência de estabilização) ao final da primeira fase da quarentena. Essa tendência mudou na segunda fase: apesar da média ter permanecido a mesma, a tendência nitidamente se alterou e transformou a linha em uma crescente.

Três fatores, em minha opinião, contribuíram para isso: uma melhora na alimentação (ganhei 4kg na fase 1 e perdi todos na fase 2); uma importante diminuição no estresse diário; e a volta da natação, a modalidade que, por algum motivo qualquer, mais funciona como “calmante” para mim.

Nenhum desses fatores aparece acima. Ao contrário: a performance do sono até melhorou durante a quarentena, em grande parte porque a eliminação do transporte até o trabalho e das madrugadas pedalando na USP me deram mais tempo na cama.

HRV vs. TSS

Essa análise começa a mudar quando se cruza o HRV com o TSS. No período pre-quarentena, o TSS médio semanal estava em 757. Alto, mas compatível com um HRV igualmente alto de 108.

Logo depois da quarentena, no entanto, o HRV despencou mesmo com uma queda no volume e intensidade de atividades físicas. Ou seja: mesmo dando mais tempo para o corpo se recuperar, a recuperação foi pior.

Essa relação HRV/ recuperação começou a melhorar na fase 2, mas ainda há território a ser recuperado.

HRV vs. Recuperação

Esse último gráfico talvez seja o mais esclarecedor. Na pre-pandemia, a recuperação corporal média ficava em 61% (contra um HRV de 108). Mesmo se esse gráfico se estendesse mais para o passado, aliás, essa relação se provaria estável, quase fixa.

Observe, no entanto, a fase 2 da pandemia. A recuperação está nitidamente superior, em 67% – mesmo com uma performance de sono igual ao da fase 1 e com um volume/ intensidade de atividades físicas significativamente superior.

O que ele diz, portanto? Que o corpo está, ainda que lentamente, se recuperando e voltando ao que era.

Os gatilhos da mudança? Diminuição de estresse, melhora na alimentação, volta do calmante natural que é a natação.

O que isso tudo diz?

Primeiro, o óbvio: esse período realmente tem lascado um pedaço das nossas almas. Boa parte desses indicadores costumava ser tão fixo para mim que eu nem cogitaria variações tão intensas.

Segundo, que o estresse pode ser muito mais poderoso que se imagina. E digo isso porque os quilos ganhos com um desregramento da alimentação e a falta de uma atividade que serve, para mim, como calmante natural, foram causa para uma desestabilização geral no corpo.

Talvez – e digo isso como uma espécie de engenheiro de obra pronta – eu devesse ter abraçado coisas como Yoga ou algum tipo de meditação durante esse período. Cuidar da mente era claramente mais importante – e mesmo os efeitos disso no corpo ficaram cristalinamente claros.

Mas e agora? O que fazer?

Bom… verdade seja dita, ainda estamos no meio da pandemia e é impossível prever quando, de fato, ela terminará – ou mesmo se acabaremos voltando aos estágios mais tensos da quarentena. Seja como for, pelo menos essa visão mais numérica, mais clara, já ajuda a entender melhor os segredos que o corpo diz (mas que sempre teimamos em não escutar).

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