UB515: Relato filosófico de prova

Ao fundo, uma linha azul acompanhada de um barulho ocre, abafado, indicava que a linha de chegada estava próxima. Finalmente.

Finalmente? Difícil reafirmar esta palavra depois de se gastar meio milímetro de segundo pensando em seu sentido. Porque tudo, toda aquela jornada de mais de 31 horas no extremo do limite físico já era uma espessíssima linha de chegada por si só, uma que se podia medir em quilômetros e quilômetros e quilômetros. 515 quilômetros contados a partir do primeiro passo, milhares e milhares de quilômetros contados a partir da primeira decisão.

Mas, como aventuras raramente são narradas a partir de seus preparos, iniciemos esta pela sua primeira gota de suor oficial derramada.

Dia 1: 10km de natação, 145km de ciclismo

Pelos mares de Paraty

Há de haver algum significado filosófico no fato da primeira disciplina do triathlon ser justamente a natação.

Dentre todas as modalidades esportivas, é a única em que o meio, a água, domina o corpo com uma facilidade pueril. É a única que abraça enquanto drena as energias vampirescamente; que exibe-se em belezas ora imersas no infinito verde escuro, ora resplandescentes em morros acesos pelo sol no entorno de baías sagradas; que nos transforma em aves submersas sutis, cortando a superfície como uma lâmina em busca de horizontes.

Indo e vindo, em 5 voltas de 2km cada, o primeiro dia da lendária UB515 – uma das mais icônicas provas de ultra-triathlon do mundo – não poderia ter se iniciado de maneira mais poética.

Indo e vindo em braçadas leves mas firmes, acompanhadas por gaivotas acima, tartarugas marinhas abaixo, por uma mescla de caiaques e nadadores em todos os lados.

Indo e vindo, indo e vindo, indo e vindo. Repetindo o próprio ato da repetição tal como um mantra religioso, iniciando a escavação espiritual que define qualquer esporte de ultra distância, dissolvendo os suores nos mares e os esforços nos sorrisos ainda disfarçados pelo olhar fixo na meta.

Indo e vindo como a mente que, já nos primeiros metros, voava para longe e visitava o caos em que a vida recente havia se transformado. Caos, estresses, projetos, rupturas, esperanças, dificuldades. A vida na pandemia não estava sendo fácil ou leve. Não estava sendo sutil. Não estava sendo tranquila. Não estava sendo vida.

Mas estava sendo vivida, atravessada, enfrentada de forma que orgulharia Guimarães Rosa. “Viver é perigoso”, ele diria (ou dizia). Mas é a única alternativa que nos resta.

E assim, pouco a pouco, as agruras de um cotidiano massacrante foram desembrulhadas, abertas ao sabor da brisa salgada que varria a superfície do mar. E assim, pouco a pouco, as agruras viravam areia, se afinavam, voavam longe em forma de lembranças distantes do que já não parecia mais ser perigo.

Há uma filosofia na natação. Ao virarmos peixes, ao nos entregarmos felizes ao inóspito do irrespirável, começamos a perceber o tanto de supérfluo que povoa os nossos problemas. O quão ingênuos eles são, o quão desimportantes quando observados à distância de uma outra dimensão, o quão minúsculos perto daquele infinito de vida molhada compassada ritmicamente em braçadas suaves, leves, metronômicas.

E, em algum ponto entre idas e vindas e idas e vindas e idas e vindas, já havia alguma ordem no caos, alguma direção a ser seguida, algum sentido naquilo tudo.

Era hora de emergir. De sair da água, de agradecer ao sal e aos Deuses que tantos juram que habitam as profundezas, e de partir para a segunda parte metafísica da prova.

O Ciclismo

Mente quem diz que é natural pedalar imediatamente depois de se nadar. Impossível. Troca-se a água pelo ar e seus ventos ignorando-se completamente o único meio que os une: o chão, a terra.

Mas o UB515 é assim mesmo: ele é construído como uma pirraça aos Deuses, como um desafio gregamente construído para mostrar que o homem é capaz de qualquer coisa.

Não sem suas dificuldades, claro.

Sair da água, tirar a roupa de borracha, montar na bicicleta e zarpar por um asfalto duvidoso ao longo de 145km não foi exatamente fácil. Houve algum tipo importante de confusão mental que me impedia de clipar na posição aerodinâmica com a devida facilidade, que me impedia de perfurar o ar como uma bala, que cuspia nas minhas intenções de seguir alheio às turbulências que a vida na pandemia insistia em carregar.

Pelo menos até os primeiros buracos no asfalto. E as primeiras descidas íngremes. E as primeiras das incontáveis tantas vistas deslumbrantes da Rio-Santos.

Ali, cerca de 30km ou 1 hora depois de eu girar o primeiro pedal, a mente acordou para a necessidade de se concentrar única e exclusivamente no trajeto.

Voar é assim: é preciso entregar os pensamentos ao corpo e deixá-lo guiar olhos e gestos para que se atropele os perigos da alta velocidade ao invés de se ser atropelado por eles.

Diferente de nadar, voar não é um ato filosófico: é um ato mecânico. Ao menos para quem usa uma bicicleta ao invés de um par de asas.

Mas atos mecânicos tem suas vantagens sobre a filosofia: eles nos permitem desligar os pensamentos por completo. Traduzem-se em comandos: esquerda, direita, mudar de posição, aumentar a RPM, trocar de marcha, sorrir para a vista, diminuir a RPM, desviar de pedras soltas, dialogar com o corpo sobre hidratação e nutrição, continuar, continuar, continuar.

Marcha, RPM, suor, beber, comer, girar, nunca parar.

Olhar, perceber, reagir.

Driblar, desviar, manter a atenção no trânsito vindo de trás a cada ultrapassagem.

Marcha leve, marcha pesada. Aerodinâmica. Matemática instintiva.

Matemática instintiva.

Não é surpreendente entender que o primeiro dia da UB515 acaba apenas ao final do segundo.

Dia 2: 276km de ciclismo

Porque o dia dois é essencialmente composto de mais pedal. Muito mais, diga-se de passagem: 276km que se desdobram de Paraty até o topo da Serra de Lídice, nos arredores de Angra, e que depois voltam até a praia de Picinguaba e retornam finalmente ao pórtico de Paraty.

276km de atos mecânicos, de vistas ainda mais deslumbrantes, de desafios ainda mais ímpares.

Como os intermináveis quilômetros finais da Serra de Lídice, compostos por uma sequência de três túneis escuros, úmidos e pavimentados de paralelepípedos alternados com crateras. Ou como as subidas por paredões de beleza pura, abrindo-se em vistas inacreditáveis de mar e montanha que transformavam a necessidade de se prestar atenção no caminho em um desafio à parte. Ou como o relógio, que seguia correndo até o limite de doze horas permitidas para se concluir o percurso enquanto este parecia se prolongar em mais e mais quilômetros.

Mas, ainda assim, por mais longo que tenha sido esse segundo dia, ele passou como um piscar de olhos. Foi embora mecanicamente. Findou-se com a sirene da polícia rodoviária federal que, a 10km da chegada, aparecia para escoltar os ciclistas em meio a alardes e endorfinas adrenalinadas.

11 horas de percurso e minhas lembranças, hoje, se resumem a subidas, túneis, vistas e sirenes.

Voar, como disse, é inevitavelmente um ato mecânico. É o corpo que demanda foco exclusivo da mente, deixando pouco tempo para que ela voe solta, livre de si mesma, entrelaçando vistas com pensamentos em um casamento quântico indefinível.

É diferente da natação. É diferente da corrida.

Dia 3: 84km de corrida

O terceiro dia é uma espécie de coroação do esforço: 84km de corrida a um ritmo rápido demais para se perder nas filosofias do nado, mas lento demais para se ignorar os pensamentos como no ciclismo.

A corrida é a infantaria dos esportes: mói a musculatura como nenhum outro, exige força de vontade e paciência sobre-humanas, dissolve a carne em suor, ensina o que significa o limite da dor.

A corrida é, por esses mesmos motivos, a modalidade ideal para se fechar qualquer prova longa. Porque se a natação muda a perspectiva sobre qualquer problema mundano e o ciclismo retira a mente de si mesma, é a corrida que volta a unir o metafísico ao físico para cimentar com uma espécie de paz sagrada, de tranquilidade suprema, toda a imagem que se tem de toda e qualquer possibilidade de futuro.

É a corrida e todo o conjunto de hormônios por ela liberados que transforma a vida inteira em uma paisagem atemporal, pronta para ser admirada, analisada e sorvida.

E assim o foi por outras 11 horas, não sem seus contratempos, que Paraty foi se aproximando.

Que o pórtico da cidade foi ultrapassado.

Que as motos da polícia rodoviária apareceram, com sirenes ecoando pelos ares, para indicar o caminho até a praia.

Que, ao fundo, a linha azul do mar acompanhada do barulho ocre e abafado da torcida indicou a linha de chegada.

A chegada

10km de natação. 421km de ciclismo. 84km de corrida.

Três dias que abraçaram cerca de 31 horas de prova, de limites plurais, de reflexões ainda mais plurais.

A linha de chegada trouxe consigo minha mulher e minhas duas filhas, que acompanharam de perto, e sem jamais perder o entusiasmo, as tantas horas de preparação para aquele momento tão infinito quanto passageiro. A linha de chegada trouxe a sensação de missão cumprida do Pablo e do Bira, os dois amigos que atuaram como apoio ao longo da prova garantindo minha segurança, e da Luana, parceira de provas que, desta vez, emanou suas energias a distância. A linha de chegada trouxe o alívio da Ana Paula, amiga-irmã e nutricionista, do Focá, meu treinador de triathlon, e do Tomaz, meu técnico de natação. A linha de chegada trouxe a honra de ter compartilhado caminhos com lendas como Sérgio Cordeiro, Pedrão Morganti, Aléssio Eulálio, Marilza Saldanha, Aline Luftmann, Fabiano de Mello, Alexandre Constantino, Alex Pinheiro, Sérgio Meniconi, Alessandro Medeiros, Erick Duarte, Gustavo Guaraldi, Diogo Becker. A linha de chegada trouxe, enfim, a chegada, o final de uma jornada longa em busca de uma espécie de paz de espírito quase religiosa, a realização de que, se podemos cruzar tanto em tão pouco tempo, então podemos fazer muito mais do que costumamos julgar em nossos amassados cotidianos.

A UB515 foi, talvez, a mais icônica de todas as provas que já fiz na vida. A mais bela, a mais incrível, a mais intensa. É, sem sombra de dúvidas, a prova que mais recomendo a qualquer um tentando se reencontrar em algum desses momentos estranhos de vida que volta e meia todos acabamos tropeçando.

10 comentários em “UB515: Relato filosófico de prova

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  1. Parabéns nobre amigo Ricardo!! – Sua narrativa nos transporta para dentro da prova, uau!! show completo, você é uma camarada único. Sensacional.

  2. Ricardo, sua narração é inspiradora e em breve estarei me preparando para ser um ub515. Obrigado por me fazer parte dessa história, siga em frente, seja sempre feliz, inspirador e conte comigo.

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