Reproduzindo um relato :)

Não sei quem escreveu esse texto – me deparei com ele num grupo de Whats. Se alguem conhecer a autora, por favor comente dando os devidos créditos.

Ele não é o relato da esposa de um ultramaratonista, mas sim de um ciclista. Ignore o esporte: você perceberá que ele se encaixa bem em nosso mundo também 🙂

“Bom, tudo começa com uma frase ‘amor, acho que vou começar a pedalar’, aí chega a primeira bike, nada mais que uns 2000,00 e já está na maior empolgação, quando vai para o primeiro pedal volta desanimado pq a super bike não é leve e nada de super, comparando com as dos outros caras, ok, troca a bike por uma ultra mega super moderna, e ainda tem que comprar outra bicicleta speed só para treinar e ainda pendurar as duas dentro de casa, pq como elas valem mais que vc, Deus me livre ficar no bicicletário, mais fácil a gente dormir na garagem.(eles acham que a gente não sabe que a bicicleta vale uma fortuna né, aham tá bom) 😒😒… Depois vem os acessórios, é um tal de carbono pra lá, pesa quanto pra cá…ainda coloca tudo dentro de várias caixas e ocupa um guarda roupa quase todo..😠 que se puder, usa roupa de pedal até para ir à um casamento. Começam então os pedais, primeiro uma vez na semana, depois duas, depois três e quando menos espera são todos os dias. Quando percebe, sua vida social já acabou, pq seu marido tem que dormir cedo, não quer sair pq não pode beber para acordar 04:00;5:00h para pedalar, e detalhe, 5:00h da manhã em pleno sábado que vc quer dormir até mais tarde. Mas até aí tudo bem. Agora vem a necessidade de competir, aí acabou para você, pq os infelizes dos organizadores fazem provas TODOS OS FINAIS DE SEMANA. TODOS, TODOS, TODOS. E vc tem que acompanhar se ainda quiser ter uma vida conjugal e quiser passear um pouco. Mas, os queridos organizadores não pensam nas pobres esposas com seus filhos, então, vc fica por 2, 3, 4h correndo atrás do seu filho, embaixo de sol, calor do cão, sem lugar para sentar, tendo que sentar em meio fio das calçadas (se der sorte de não ter formigueiro) podia pelo menos colocar um pula pula para as crianças 🙂🙂… e quando seu marido chega, vc ainda tem que torcer, bater palma, gritar e ahhhhh nunca se esqueça que tem que tirar foto dele cruzando a chegada e aaaaiiiiii de vc se a foto não sair boa tá!!!!! Pensa que acabou????? Calma. Quando eles chegam, vc crente que vai embora, ainda tem que esperar ele conversar com os outros ciclistas, fazer aquele social, descobrir a posição, esperar todos os 753000 atletas chegarem para somente depois disso pegar o podium, ou somente assistir mesmo. Depois tem que esperar tomar banho, ok?! Ou vai embora fedorento mesmo no carro. Nessa história toda vc só vai para casa 16, 17h. Seu belo dia de esposa de ciclista acabou. E ao chegar em casa ainda são mais umas 3h só mexendo no tal do Garmin e Strava, que o dia que eu descobrir quem inventou eu juro que vou perguntar se tem família. Rsrsrs Te amo meu bem 😘” 

É tudo uma questão de imaginar a coisa certa

Sabe aqueles momentos em que os olhos começam a arder de cansaço, o ácido láctico começa a navalhar coxas e panturrilhas e o pensamento cisma em atravessar o percurso até um banho quente e uma xícara de café?

Pois é: acontece com todos nós, claro. A parte mais difícil de qualquer ultra não é o trecho até a chegada: é a estrada até a largada. 

Por sorte, não estamos falando aqui de uma prova qualquer, como uma maratona de rua na cidade em que moramos (e que, portanto, já se despiu de suas magias). 

Estamos falando daqueles dias incríveis em Durban; da largada na sagrada cidade de Pietermaritzburg, berço de Alan Paton e de toda a filosofia de paz do Gandhi; estamos falando da África; estamos falando da Comrades.

Basta deixar a mente voar por aquele vale dos mil morros, pelos picos de Inchanga, Bothas, Polly Shortts, pela chegada olímpica no estádio em meio ao que só podemos chamar de cadáveres eufóricos pelas suas vitórias pessoais.

Aí a navalha do ácido láctico se recolhe. Os olhos sorriem. O pensamento todo se volta para a meta real.

Aí fica bem mais fácil continuar mesmo o mais duro dos treinos.

É tudo uma questão de saber imaginar a inspiração certa.

A melhor coisa

Definitivamente: a melhor parte de todo esse negócio de ciclismo é que, como preciso madrugar para pedalar na USP pelo menos três vezes por semana, sou forçado a testemunhar o sol nascer, pintando o céu de vermelho e azul, enquanto é atravessado por fluxos infinitos de flechas em forma de bikes.

Não há melhor forma de começar o dia.

O primeiro treino

Quinta-feira, 3 de agosto, 4:30 AM.

Treinar ciclismo em uma cidade como São Paulo é diferente de treinar corrida. Na corrida, basta colocar um tênis e começar a partir da porta de casa.

No ciclismo, as preocupações são outras: o trânsito tem um peso maior, o equipamento exige asfaltos quase utopicamente lisos, o risco de assalto é real. Como lidar com isso?

Com organização.

Assim, entrei em uma assessoria mais focada em triathlon e me juntei a eles em, inicialmente, três treinos por semana: terças e quintas às 5 da manhã e sábados às 6:30.

5 da manhã, diga-se de passagem, já a partir do local de treino, na USP. Em outras palavras: meu despertador agora precisará cantar às 4:15 ao menos dois dias por semana. OK… sempre considerei que dormir deve ser algo deixado para depois que morrermos.

5:00 AM.

Cheguei na USP para o meu primeiro treino. Como essa é a hora exata que os portões abrem, um mini trânsito de carros carregando bikes já se formava. Durou 2 minutos.

Saí, me localizei, cheguei ao ponto de largada da assessoria, me paramentei de capacete e luvas e sapatilhas de clipe.

Dei o primeiro impulso.

Sem queda.

A sapatilha com clipe era um terror em minha mente. Para quem não conhece, é um tipo de calçado que se prende aos pedais para permitir que bike e ciclista virem uma espécie de elemento único. Funciona… mas há um certo equilíbrio necessário para se montar, clipar os pés e seguir em frente (e, ao final, para se desclipar os pés sem tombar na rua).

Medo vencido.

Começamos dando umas voltas pela USP e, em seguida, subindo a Biologia – um trecho mais íngreme que costuma ser bebido aos golões por corredores de ultra ou montanha. Subimos uma, duas, três vezes. Deu vontade de mais.

Me familiarizei com as marchas. Aprendi a trocar de volantão para volantinho, aumentando a cadência e buscando mais eficiência. Nas descidas, procurei ser mais cauteloso, evitando voar como os demais ciclistas já habituados àquilo tudo. Ainda estava começando.

Experimentei, testei, senti a bike, o asfalto, as respostas do corpo.

A cada par de minutos, ia deixando na rua um pouco da tensão dos novatos. Aos poucos, fui me soltando, me fazendo mais confortável, mais solto, mais… leve.

6:14 AM.

Alguma mágica acontecia.

De repente, estava rodando só, vendo o céu raiar por trás das árvores e sentindo o vento lambendo o rosto. Não faço ideia da velocidade que estava… mas estava voando.

Estava leve.

Estava como que fluindo por uma corrente de ar adrenalinado, vendo, aos lados, outras correntes levando outros ciclistas por entre paisagens absolutamente singulares.

Respirei fundo, sorvendo cada átomo de ar que ia de encontro à minha boca levemente aberta.

Gravei um filme inteiro em minha mente.

Entendi o esporte.

Não só o ciclismo, até então estranho para mim, mas esse duo entre pedalar e correr, entre sentir o ar e a terra; esse duo que, se tudo der certo, me permitirá cruzar o mais selvagem e fantástico dos mundos – a África – usando como combustível tanto a inspiração que emana do próprio continente quanto a que será gerada pelos Unogwajas para as comunidades locais.

Tudo fez todo o sentido do mundo.

Nada mal para um primeiro treino.

6:40 AM.

Depois de 22.9km rodados – ainda pouco para o tempo todo que passei na USP – era hora de voltar à vida cotidiana. Estava em plena quinta-feira, afinal, e o trabalho já começava a se materializar nos primeiros emails do dia.

Caí em uma conclusão fabulosa: aquela hora e meia rodando a USP não era um evento único – era o começo de toda uma nova rotina.

biking-sunset

Hoje

De alguma forma, a cidade parece mais estática hoje. É como se houvesse alguma energia no ar, algo deixando os fios dos cabelos de pé, mas sem gerar aquela conturbação que costuma caracterizar explosões de estresse. 

Está cedo, ainda antes das 6. As ruas estão desertas, o asfalto ainda não sentiu os primeiros raios do sol e o escuro do céu apenas começa a dar sinais de que pretende sair. Não está nem quente, nem frio: uma espécie de temperatura tão amena que beira o inexistente parece se deitar sobre São Paulo. 

Sigo adiante, ligando o Garmin e dando os primeiros passos. 

Apenas eles são ouvidos, de tal forma que fico até preocupado em não despertar a metrópole com os meus pés. Bobagem, claro – mas o silêncio em excesso sempre desvia os nossos pensamentos por vielas inexistentes. 

Tão mudo quanto rápido, viro algumas esquinas, sigo algumas retas e cruzo os portões do Ibirapuera. 

Outros passos começam a ser ouvidos.

Uma brisa fina sopra a nuca, avisando que há mais coisa se mexendo na madrugada além dos meus próprios pensamentos. Corro. 

Em pace cravado na casa dos 5’30″/km, passo um outro corredor solitário que faz a sua ronda diária, provavelmente sem entender o significado daquele dia. Não olho para trás: apenas sigo. 

Caço desvios para prolongar um pouco a rota, entrando em esquinas novas e desbravando cantos mais obscuros do parque. Mas, claro, ele não é tão grande assim e em cerca de 15 minutos completo a volta. 

Penso em fazer uma outra volta, motivado pela endorfina, mas desisto: não é hora de exagerar. 

Saio pelo mesmo portão que entrei e, de repente, de um minuto para outro, percebo que tudo está diferente. 

O sol já domina o céu, iluminando cada centímetro do meu caminho de volta; carros apressados furam semáforos sem culpa, buzinam e aceleram para fugirem de multas em dias de rodízio; pássaros se esguelam pelos céus, brigando para serem vistos em uma cidade com tanta coisa para se ver que a invisibilidade passa a ser um destino quase natural das coisas. 

Acima de tudo, há barulho: muito barulho. 

São Paulo acordou. 

Ainda em silêncio, faço meu caminho de volta para casa, trocando a arrogância de quem temia acordar a metrópole com as próprias passadas pela humildade de quem começa a se sentir uma formiga irrelevante. 

Aos poucos, o sprint vira trote e o trote vira caminhada. Chego no destino. 

A partir desse momento, um ciclo importante se encerra: termino o meu último treino antes de voar para a África rumo à Comrades. 

Em poucas horas estarei no avião. 

Agora já é hora de me arrumar.

  

Enganando o corpo

O plano era simples, até modesto: correr até a USP, dar uma voltinha por lá e retornar, somando 23 ou 24km levíssimos entre amigos.

Era. 

Bom… como diminui bastante o volume essa semana para me recuperar da Maratona de SP, aconteceu aquele efeito infalível da fase de polimento/ tapering: dores fantasmas por todo o corpo.

De repente, joelhos, tornozelos e até a planta do pé começaram a reclamar insistentemente, me fazendo cortar mais treinos e diminuir o ritmo. Quanto mais eu diminuía, no entanto, mais as dores apareciam. 

Até que a ficha caiu: o corpo estava em “tilt”. Já não sabia mais o que eu planejava e, portanto, passou a reclamar de qualquer coisa a seu modo. E claro: na medida em que eu dava trela, cedendo tempo a ele, mais ele reclamava.

Hora de mudar de estratégia.

Já dei os primeiros passos com más intenções. Sabia que não podia exagerar – mas nada de pegar leve demais. Acelerei, focado na rua, e cruzei a marginal até a USP. Corri mais forte. 

Entrei na trilha e dei uma volta, já surpreendendo o corpo.

Subi a Biologia acelerado. Cortei a praça do topo e comecei a descer.

No caminho, cruzei com o David, Leandro e Nishi – todos mais rápidos que eu, o que seria perfeito. Me juntei a eles, mudei de rota surpreendendo o corpo novamente e, em sentido invertido, subi e desci até fechar a USP. Em alguns momentos, o ritmo chegou a se pendurar na casa dos 5’/km.

E, embalado, voltei.

No total, foram 30km rodados. 

Sim, cansei – mas todas as dores esquisitas sumiram.

Corpo devidamente enganado. Missão cumprida.

Agora é manter o ritmo, sem tirar nem por, até o domingo que vem!