Unogwaja: começando o processo de seleção

Na segunda passada, oficialmente, iniciou-se o processo de seleção dos Unogwaja 2018. Às 7:30 da manhã, para ser mais preciso, em um Facetime entre o idealizador, John McInroy, e eu.

Sujeito interessante – o mínimo que se pode dizer, claro, de alguém que criou um movimento tão gigantesco, unindo atletas do mundo inteiro e arrecadando milhões para caridade. Aliás, o currículo do John, por si só, já inspiraria algum nervosismo: além de atleta profissional, ele já chegou até a cruzar a África a pé em nome desse desafio!

Mas não: poucas pessoas são tão simples e, ao mesmo tempo, tão “magnéticas”. 

A entrevista durou uns 40 minutos entre perguntas sobre meu passado pessoal, meu preparo físico, minha estratégia de arrecadação e, claro, a busca pela certeza de que estávamos na mesma página sobre o que é, exatamente, o Unogwaja.

Nada de diferente do que eu já sabia: um desafio encarado mais com o coração do que com o corpo ou com a mente e inteiramente dedicado a mudar o mundo de todos os envolvidos, das comunidades carentes aos espectadores aos apoiadores e, claro, aos próprios atletas. 

O resultado dessa entrevista? Só saberei mesmo quando anunciarem os selecionados, em 1 de setembro. Até lá, tenho mais um papo (hoje à noite) com outra figura pra lá de magnética, o embaixador brasileiro da Comrades, Green Number e um dos meus heróis pessoais, Nato Amaral, que participa do processo de seleção, e talvez mais um ou outro Facetime com o John ou outro membro do grupo.

E claro: duas semanas de contenção de ansiedade. Tudo bem: encaremos isso como parte do treino mental.

O que é o Unogwaja?

OK. Está na hora de falar um pouco mais sobre esse desafio para o qual me candidatei (e torço diariamente para ser selecionado).

Historicamente, o Unogwaja nasceu a partir da experiência de um corredor, Phil Masterton-Smith, que venceu a Comrades em 1931.

Dois anos depois, em 1933, ele se viu sem dinheiro para comprar a passagem de trem de Cape Town, onde morava, até a largada da ultra, em Pietermaritzburg. O que ele fez? Arrumou uma bicicleta e pedalou por 1660km, cruzando a África do Sul de ponta a ponta, até chegar na largada.

Phil não venceu a prova nesse ano, mas sua determinação acabou se transformando em lenda.

Anos, então, se passaram.

Em 2011, um grupo de sul-africanos liderado por John McInroy se inspirou na jornada de Phil e decidiu reeditá-la como um evento beneficente, cruzando o país em busca de doações para comunidades carentes.

Funcionou.

O evento se repetiria todos os anos a partir daí – e sempre com a mesma configuração: 10 dias cobrindo 1660km de pedal seguidos pelos 89km da Comrades no décimo primeiro dia.

A arrecadação também funcionou: até hoje, os Unogwaja já somaram milhões de Rands em todo o mundo – montante que cresce também por conta da exposição internacional que o grupo vem recebendo.

Grupo, acrescento, absolutamente heterodoxo. Há um processo de seleção todo ano que escolhe cerca de 12 atletas em todo o mundo, todos se responsabilizando por conseguir, individualmente, pelo menos 50 mil Rands (ou aproximadamente R$ 12 mil).

E eles conseguem. Sempre.

Como também conseguem, com esse dinheiro e com a inspiração que invariavelmente vem com a história e com a jornada, ajudar a mudar as vidas de tantos milhares de africanos que vivem impressionantemente abaixo da linha de miséria.

Phil Masterton-Smith – cujo apelido era Unogwaja, ou “lebre” em zulu – morreu sem saber o legado que estava deixando: ele foi vítima de um morteiro em 1942, durante a II Guerra Mundial, enquanto servia na cidade de Tobruk.

Os Unogwajas modernos, no entanto, garantem que esse legado sobreviva ainda por muitos anos.

Eis o mapa do percurso inteiro, abaixo (com cores dividindo cada um dos dias da jornada):

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Eis também um vídeo, em inglês, contendo um documentário sobre o evento feito em 2016:

Inspirador.

O primeiro treino

Quinta-feira, 3 de agosto, 4:30 AM.

Treinar ciclismo em uma cidade como São Paulo é diferente de treinar corrida. Na corrida, basta colocar um tênis e começar a partir da porta de casa.

No ciclismo, as preocupações são outras: o trânsito tem um peso maior, o equipamento exige asfaltos quase utopicamente lisos, o risco de assalto é real. Como lidar com isso?

Com organização.

Assim, entrei em uma assessoria mais focada em triathlon e me juntei a eles em, inicialmente, três treinos por semana: terças e quintas às 5 da manhã e sábados às 6:30.

5 da manhã, diga-se de passagem, já a partir do local de treino, na USP. Em outras palavras: meu despertador agora precisará cantar às 4:15 ao menos dois dias por semana. OK… sempre considerei que dormir deve ser algo deixado para depois que morrermos.

5:00 AM.

Cheguei na USP para o meu primeiro treino. Como essa é a hora exata que os portões abrem, um mini trânsito de carros carregando bikes já se formava. Durou 2 minutos.

Saí, me localizei, cheguei ao ponto de largada da assessoria, me paramentei de capacete e luvas e sapatilhas de clipe.

Dei o primeiro impulso.

Sem queda.

A sapatilha com clipe era um terror em minha mente. Para quem não conhece, é um tipo de calçado que se prende aos pedais para permitir que bike e ciclista virem uma espécie de elemento único. Funciona… mas há um certo equilíbrio necessário para se montar, clipar os pés e seguir em frente (e, ao final, para se desclipar os pés sem tombar na rua).

Medo vencido.

Começamos dando umas voltas pela USP e, em seguida, subindo a Biologia – um trecho mais íngreme que costuma ser bebido aos golões por corredores de ultra ou montanha. Subimos uma, duas, três vezes. Deu vontade de mais.

Me familiarizei com as marchas. Aprendi a trocar de volantão para volantinho, aumentando a cadência e buscando mais eficiência. Nas descidas, procurei ser mais cauteloso, evitando voar como os demais ciclistas já habituados àquilo tudo. Ainda estava começando.

Experimentei, testei, senti a bike, o asfalto, as respostas do corpo.

A cada par de minutos, ia deixando na rua um pouco da tensão dos novatos. Aos poucos, fui me soltando, me fazendo mais confortável, mais solto, mais… leve.

6:14 AM.

Alguma mágica acontecia.

De repente, estava rodando só, vendo o céu raiar por trás das árvores e sentindo o vento lambendo o rosto. Não faço ideia da velocidade que estava… mas estava voando.

Estava leve.

Estava como que fluindo por uma corrente de ar adrenalinado, vendo, aos lados, outras correntes levando outros ciclistas por entre paisagens absolutamente singulares.

Respirei fundo, sorvendo cada átomo de ar que ia de encontro à minha boca levemente aberta.

Gravei um filme inteiro em minha mente.

Entendi o esporte.

Não só o ciclismo, até então estranho para mim, mas esse duo entre pedalar e correr, entre sentir o ar e a terra; esse duo que, se tudo der certo, me permitirá cruzar o mais selvagem e fantástico dos mundos – a África – usando como combustível tanto a inspiração que emana do próprio continente quanto a que será gerada pelos Unogwajas para as comunidades locais.

Tudo fez todo o sentido do mundo.

Nada mal para um primeiro treino.

6:40 AM.

Depois de 22.9km rodados – ainda pouco para o tempo todo que passei na USP – era hora de voltar à vida cotidiana. Estava em plena quinta-feira, afinal, e o trabalho já começava a se materializar nos primeiros emails do dia.

Caí em uma conclusão fabulosa: aquela hora e meia rodando a USP não era um evento único – era o começo de toda uma nova rotina.

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A decisão

“Será algo para as minhas duas filhas se orgulharem de mim no futuro, quando já tiverem idade de entender a magnitude desse projeto”, disse à minha esposa na mesa do café da manhã. 

“Sem sombra de dúvidas. Não é um projeto qualquer”, ela concordou. 

Do outro lado da mesa, Isa, minha mais velha, parou o que estava fazendo e perguntou do que estávamos falando. Respondi e, prontamente, ela desceu da cadeira, desviou o carrinho de bebê onde a irmã dormia, voou até o seu quarto e, em segundos, voltou. 

“Eu tenho um real inteiro em moedinhas. Posso te dar tudo para ajudar as crianças.”

Era o que faltava para me convencer a me candidatar para o time dos Unogwaja 2018. 

***

Existe toda uma história por trás dos Unogwaja – história que, eventualmente, contarei por aqui. Por hora, basta dizer que se trata de uma jornada de 11 dias de duração, sendo 10 deles cruzando a África do Sul em cerca de 1.650km, e o décimo primeiro correndo a Comrades, mais importante ultramaratona do mundo, com 89km. Mas essa é apenas a parte final da jornada. O começo inclui meses de treinamento intenso, preparo físico e mental e de arrecadação de fundos: cada um dos 12 atletas selecionados mundo afora terá uma responsabilidade pessoal de levantar 50.000 Rands (algo como R$ 12 mil) a serem doados para instituições de caridade africanas. 

A conversa que tive na mesa do café da manhã com minha família foi no dia 2 de julho deste ano. No dia 3, data em que as inscrições abriam, submeti a minha candidatura logo pela manhã. 

***

Um mês inteiro já se passou. Nesse período, munido de alguma confiança qualquer de que eu efetivamente seria aprovado pelo grupo, comprei uma bike, reaprendi a pedalar, entrei em uma assessoria e fiz o meu primeiro calendário de treinos híbridos, mesclando ciclismo com corrida. 

Hoje, dia 3 de agosto, é a véspera do fechamento das inscrições. Há ainda um longo mês de espera – somente no dia 1 de setembro é que os atletas parte do time serão oficialmente anunciados. 

Em outras palavras: estou, hoje, treinando duro e me preparando física e espiritualmente para um futuro que sequer sei se chegará. 

Mas, no fundo, a vida inteira não é exatamente assim? Um preparo intenso para um futuro que, na prática, não temos ideia quando ou mesmo se virá? 

O importante, creio – tanto na vida quanto nesta jornada pessoal – é tomar a decisão que se faz necessária e seguir em frente. 

Um passo depois do outro. 

Sem parar. 

Unogwaja, Dia 6

Nos últimos dias, tenho postado os vídeos dos Unogwaja diretamente aqui no blog, sem tecer nenhum tipo de comentário adicional. Hoje será um pouco diferente. 

Acompanho a jornada deles desde 2013, quando não conhecia ninguém e bebi um pouco da causa e das aventuras por meio do Youtube. Em 2014, conhecendo um deles, o Nato, me senti um pouco mais próximo. O próprio fato de ter corrido a Comrades fez com que a experiência Unogwaja, de alguma forma, pulsasse mais forte no sangue. 

Mas nesses dois anos que acompanhei, as filmagens eram essencialmente sobre a aventura de se cruzar a África. Os atletas estavam sempre em foco, se superando no desafio cotidiano de se transformar em lendas e desbravar o mais incrível dos continentes. E pouca coisa, devo confessar, é mais inspiradora do que acompanhar essa viagem. 

Em 2015, no entanto, parece que o foco do documentário mudou: ao invés dos atletas, a própria África assumiu o protagonismo. Paisagens exuberantes convivem com populações em extrema miséria e abandono, a adrenalina dos predadores contrastam com a sensação de paz absoluta das savanas, as águas azuis se chocam com o ocre acinzentado das montanhas. Tudo é selvagem, forte, denso. 

E, no fundo, quase que como espectadores, estão os atletas pedalando. Protagonistas de uma causa maior, coadjuvantes de todo um continente tão forte quanto os sonhos nos quais nos acostumamos a imaginá-lo desde crianças. 

Acompanhar essa aventura, principalmente por estar à beira de embarcar para Durban, tem sido emocionante. 

Que bons ventos soprem os brasileiros Nato e Rodrigo até Pietermaritzburg!