Desbravando a costa selvagem (em um dia pra lá de intenso)

Uma das melhores coisas de se correr é o conjunto de experiências novas por onde as pernas passam a te levar.

Claro: há mais em torno da Comrades, por exemplo, dos que os 90km que separam Durban de Pietermaritzburg. Há tudo em volta.

Há a cultura Zulu. Há os macacos nas estradas. Há o turbilhão de idiomas e credos que circulam pelas ruas. Há o cheiro de curry da cidade que mais tem indianos fora da Índia. Há as águas quentes do Índico, sempre convidativas. Há a savana que fica logo ali.

E vir para cá deixando de saborear cada centímetro desse país incrível é, para dizer o mínimo, uma perda de oportunidade.

Já pousei aqui com esse pensamento: depois das 12 horas de viagem onde mal dormi, deixei as malas no hotel e saí para uma corrida. Fiz toda a orla, entrei pelos três estádios (Kingsmead, de cricket, onde foi a chegada da Comrades no ano passado, o Moses Mabhida, de futebol, feito para a Copa de 2010, e o King’s Park, de rugbi). Senti o sol arder, queimando a pele com as boas vindas africanas, e voltei para o hotel. De lá me mandei para a Expo para retirar kits, sorver o clima da Comrades que já domina a cidade e bater papo com os tantos amigos brasileiros que aqui estão. Mas isso foi o de menos.

Hoje acordei às 4 para um programa diferente: um mergulho de cilindro na cista norte. O único problema, claro, é que eu não sabia exatamente o quão “norte” iríamos.

Saí às 5 com o transfer e, depois de 2 horas, perguntei se já estávamos chegando.A resposta, assustadora: “ainda nem chegamos na metade do caminho.” Pois é.

Vejam o mapinha abaixo: subi até ficar a 40 minutos da fronteira com Moçambique, no extremo norte da África do Sul!

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É só fazer as contas: entre a ida e a volta, foram 9 horas de viagem dentro de um carro. Cansativo? E como!

Mas por uma boa causa: ao chegar lá, a praia era praticamente um retiro de mergulhadores, com dunas encobrindo uma vegetação rasteira e um mar transparente lambendo a costa. Foi o tempo de me equipar, pular em um barco e entrar de pirueta no mar. E que mar!

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Em um intervalo de 50 minutos, vi de tubarões a tartarugas e moreias nadando ao meu lado. Absolutamente inesquecível. Deu para sentir uma espécie de paz que só existe mesmo embaixo d’água, principalmente quando se depara com tanta vida se exibindo para os olhos de quem quiser ver.

Mas, claro, tudo que é bom tem hora para acabar: e a minha havia chegado.

Sem problemas: depois da viagem de volta, voei para o segundo programa do dia: um jogo de Rugbi entre o time local, os Sharks, e um australiano, os Rebels. Não sei nada de rugbi. Nada.

Mas aprendi nos 80 minutos recheados de socos, empurrões e um contrastante cavalheirismo britânico que me deixaram impressionado.

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Novamente: como tudo o que é bom, o jogo chegou ao fim. Era hora de partir para a badalada Florida Road, mandar ver um Bunny Chow (um curry típico daqui) e chegar de volta ao hotel já quase desmaiando.

É quase desmaiando, aliás, que escrevo este post. Passa da meia noite aqui e amanhã tenho um outro dia cheio, começando às 7 com um passeio pelas deslumbrantes Drakensberg Mountains.

Mas isso é amanhã. Por enquanto é hora de dormir e descansar nem que seja por algumas horinhas. Afinal, depois de amanhã já é a Comrades!

A força de um símbolo

Pouco antes da década de 20, um veterano sul-africano da primeira guerra mundial decidiu criar uma corrida de proporções então consideradas épicas, somando 90km entre as cidades de Pietermaritzburg e Durban, para homenagear os seus camaradas que tombaram na luta. Seu raciocínio era simples: se soldados com pouco treinamento conseguiram atravessar as savanas africanas por centenas de quilômetros, carregando quilos de mantimentos e armas, então qualquer pessoa minimamente preparada também conseguiria. 

Bom… Vic Clapham precisou de algum tempo mas, em 1921, conseguiu autorização para largar com um punhado de 34 amigos loucos em uma das homenagens mais exaustivas já feitas a qualquer combatente, que ficou conhecida como a ultramaratona de Comrades. 

Curiosamente, ano após ano novos adeptos se inscreviam e, embora ainda pequena, a prova acabou se consolidando no então mínimo calendário esportivo da região.

Anos se passaram. 

Em plena era do Apartheid, a África do Sul vivia uma espécie de estrangulamento na importação de entretenimento por conta de embargos internacionais. Filmes, séries e muitos outros “produtos” eram proibidos de serem vendidos às redes de TV locais por potências mundiais que pressionavam contra a segregação racial. 

Sem opção, o principal canal africano acabava caçando assuntos dentro das fronteiras nacionais – e eventualmente se esbarrou na Comrades. Quer coisa melhor quando não se tem o que transmitir do que um evento que dure 12 horas seguidas? 

Assim, a Comrades passou a ter cobertura televisiva ao vivo – do início ao fim. E, como a demanda imensa não tinha outra opção de oferta, milhões de sul-africanos foram lentamente se habituando a assistir a cada segundo do evento. 

Mais alguns anos se passaram. 

De símbolo de camaradagem, a prova cresceu enormemente graças, ironicamente, à existência do Apartheid que incentivara a cobertura em TV nacional. Seu porte ficou tamanho que logo ela se tornou símbolo máximo do orgulho sul-africano – a tal ponto que o regime racista decidiu usar uma edição inteira para comemorar o seu vigésimo aniversário, em 1981. 

Nova inversão de circunstâncias: o que era orgulho virou símbolo da luta contra o Apartheid e até os corredores de elite brancos decidiram fazer o percurso usando uma tarja negra em protesto contra a organização. 

Os tempos mudaram de novo. 

O Apartheid caiu. 

Os embargos sumiram. 

Um mar de produtos de entretenimento cruzou as savanas inundando o público de opções. 

Muitos duvidaram que o evento conseguisse manter o seu appeal em um novo mundo, em um contexto em que a África do Sul não estava mais excluída do restante do planeta. Mas ele conseguiu. 

Depois de tantos anos, a Comrades estava já embedada no DNA sul-africano, traduzindo-se em um símbolo máximo de vitória para as tantas lutas que ela acabou representando ao longo de sua história.  

No próximo dia 31 de maio será dada a largada da nonagésima edição da prova, com quase 20 mil corredores que enfrentarão os seus 90km em busca da glória pessoal. 

Eu largarei pela segunda vez nessa prova – escrevo este post, inclusive, da cidade de Durban, onde acabei de pousar. No ano passado, o que mais me chamou a atenção foi a camaradagem que realmente inunda toda a região: basta dizer que você correrá a Comrades e até café de graça te oferecem, sempre com um sorriso orgulhoso estampado no rosto de cada sul-africano. 

Durante as 10 horas e 54 minutos que levei, décadas de tradição se traduziram em palavras de força e torcida tanto de outros corredores quanto dos incontáveis espectadores que, incrivelmente, lotam todos os 90km, dos dois lados da estrada, para testemunhar o que eles consideram como um dos mais importantes momentos históricos de sua pátria. 

Uma coisa não se discute: correr Comrades muda a vida de qualquer um: aprende-se que resultados só vem com treinos persistentes, aprende-se a lidar com dor e sofrimento, a deixar a mente forçar o corpo quando este pede clemência, a entrar em um mundo mais zen do que se possa imaginar.

Mas o mero fato de testemunhar de perto a existência de um evento assim já dá uma perspectiva incrível. Afinal, como pode um evento ter nascido de uma homenagem nobre a soldados caídos em uma guerra ter se transformado em símbolo de uma nação, depois em símbolo de um regime perverso como o Apartheid, se nutrindo dos seus efeitos até atingir a maioridade, depois ter virado a cara da luta pela união racial e, finalmente, ter se eternizado como símbolo máximo de orgulho para todo um povo? 

Símbolos são sempre curiosos: como camaleões, eles mudam ao sabor das circunstâncias, se alimentando de qualquer emoção que estiver ao alcance para crescer e se consolidar quase que com vida própria.

São mais que curiosos: são de um poder simplesmente inacreditável.

  

Planilha de Ross Tucker para apoiar no planejamento de pace em Comrades

Hoje cedo me deparei com uma planilha bem interessante do Ross Tucker, um dos principais cientistas esportivos da África do Sul.

Ele basicamente desenhou a base de uma estratégia mesclando corrida e caminhada para Comrades, que pode ser ajustada de acordo com perfil e meta de cada corredor. Sei que, a essa altura, a maioria dos brasileiros já está a caminho do aeroporto e com todo o seu plano esquematizado – mas ainda assim vale conferir.

O link direto é: https://docs.google.com/spreadsheets/d/1K6cncc_YFnArBJGaczrgcaU7DBsNMqvvQ2mFA9ScGS8/htmlview?pli=1

  

Nos últimos dias, tenho postado os vídeos dos Unogwaja diretamente aqui no blog, sem tecer nenhum tipo de comentário adicional. Hoje será um pouco diferente. 

Acompanho a jornada deles desde 2013, quando não conhecia ninguém e bebi um pouco da causa e das aventuras por meio do Youtube. Em 2014, conhecendo um deles, o Nato, me senti um pouco mais próximo. O próprio fato de ter corrido a Comrades fez com que a experiência Unogwaja, de alguma forma, pulsasse mais forte no sangue. 

Mas nesses dois anos que acompanhei, as filmagens eram essencialmente sobre a aventura de se cruzar a África. Os atletas estavam sempre em foco, se superando no desafio cotidiano de se transformar em lendas e desbravar o mais incrível dos continentes. E pouca coisa, devo confessar, é mais inspiradora do que acompanhar essa viagem. 

Em 2015, no entanto, parece que o foco do documentário mudou: ao invés dos atletas, a própria África assumiu o protagonismo. Paisagens exuberantes convivem com populações em extrema miséria e abandono, a adrenalina dos predadores contrastam com a sensação de paz absoluta das savanas, as águas azuis se chocam com o ocre acinzentado das montanhas. Tudo é selvagem, forte, denso. 

E, no fundo, quase que como espectadores, estão os atletas pedalando. Protagonistas de uma causa maior, coadjuvantes de todo um continente tão forte quanto os sonhos nos quais nos acostumamos a imaginá-lo desde crianças. 

Acompanhar essa aventura, principalmente por estar à beira de embarcar para Durban, tem sido emocionante. 

Que bons ventos soprem os brasileiros Nato e Rodrigo até Pietermaritzburg!

Unogwaja, Dia 6

Hoje

De alguma forma, a cidade parece mais estática hoje. É como se houvesse alguma energia no ar, algo deixando os fios dos cabelos de pé, mas sem gerar aquela conturbação que costuma caracterizar explosões de estresse. 

Está cedo, ainda antes das 6. As ruas estão desertas, o asfalto ainda não sentiu os primeiros raios do sol e o escuro do céu apenas começa a dar sinais de que pretende sair. Não está nem quente, nem frio: uma espécie de temperatura tão amena que beira o inexistente parece se deitar sobre São Paulo. 

Sigo adiante, ligando o Garmin e dando os primeiros passos. 

Apenas eles são ouvidos, de tal forma que fico até preocupado em não despertar a metrópole com os meus pés. Bobagem, claro – mas o silêncio em excesso sempre desvia os nossos pensamentos por vielas inexistentes. 

Tão mudo quanto rápido, viro algumas esquinas, sigo algumas retas e cruzo os portões do Ibirapuera. 

Outros passos começam a ser ouvidos.

Uma brisa fina sopra a nuca, avisando que há mais coisa se mexendo na madrugada além dos meus próprios pensamentos. Corro. 

Em pace cravado na casa dos 5’30″/km, passo um outro corredor solitário que faz a sua ronda diária, provavelmente sem entender o significado daquele dia. Não olho para trás: apenas sigo. 

Caço desvios para prolongar um pouco a rota, entrando em esquinas novas e desbravando cantos mais obscuros do parque. Mas, claro, ele não é tão grande assim e em cerca de 15 minutos completo a volta. 

Penso em fazer uma outra volta, motivado pela endorfina, mas desisto: não é hora de exagerar. 

Saio pelo mesmo portão que entrei e, de repente, de um minuto para outro, percebo que tudo está diferente. 

O sol já domina o céu, iluminando cada centímetro do meu caminho de volta; carros apressados furam semáforos sem culpa, buzinam e aceleram para fugirem de multas em dias de rodízio; pássaros se esguelam pelos céus, brigando para serem vistos em uma cidade com tanta coisa para se ver que a invisibilidade passa a ser um destino quase natural das coisas. 

Acima de tudo, há barulho: muito barulho. 

São Paulo acordou. 

Ainda em silêncio, faço meu caminho de volta para casa, trocando a arrogância de quem temia acordar a metrópole com as próprias passadas pela humildade de quem começa a se sentir uma formiga irrelevante. 

Aos poucos, o sprint vira trote e o trote vira caminhada. Chego no destino. 

A partir desse momento, um ciclo importante se encerra: termino o meu último treino antes de voar para a África rumo à Comrades. 

Em poucas horas estarei no avião. 

Agora já é hora de me arrumar.